O GLOBO - ECONOMIA 26/11/2004

Por Flavia Oliveira

 

REAL FRACO SIGNIFICA SALÁRIO BAIXO, DIZ GUSTAVO FRANCO

 

Ex-presidente do BC condena defesa do dólar caro, feita inclusive pelo presidente Lula, em prol das exportações


As discussões das últimas semanas sobre a queda do dólar e seus possíveis prejuízos às exportações mereceram a atenção do economista Gustavo Franco. Presidente do Banco Central de agosto de 1997 a janeiro de 1999 (quando o sistema de bandas cambiais foi abandonado, dando lugar à flutuação), ele se surpreendeu com a defesa de um real mais fraco em prol do comércio exterior por economistas de esquerda, exportadores e pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tratou do assunto em entrevista à TV Bloomberg, exibida terça-feira.

— Nesse tipo de declaração, onde se lê câmbio, é bom ler salário. Defender câmbio desvalorizado é defender salário baixo. É incrível ouvir que a esquerda é pró salário baixo — disse ao GLOBO, por telefone, sem citar diretamente o presidente.

Dias antes, Franco dedicara ao debate cambial seu artigo semanal na revista “Veja”. No texto, chamava a atenção para o fato de a moeda americana, neste momento, estar no mesmo patamar de dezembro de 1998, se corrigida pelo Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) ou pelo Índice de Preços por Atacado (IPA) acumulados desde então. Para ele, é uma evidência de que o êxito das vendas externas não é resultado exclusivamente da desvalorização. A seguir, os principais trechos da entrevista do sócio-diretor da Rio Bravo Investimentos:

REAL FRACO: “O que explica a diferença do câmbio real calculado com base no IPA e no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, a referência do sistema de metas) é o salário real. Todos os preços, em maior ou menor intensidade, acompanharam a desvalorização cambial, exceto os salários. O salário real caiu muito nos últimos anos, especialmente em dólar. O país ficou mais pobre. É claro que esta redução ajuda as exportações. Mas o desempenho do comércio exterior deveria se basear nos ambientes micro e macroeconômicos e no aumento da produtividade, não na queda dos salários”.

CÂMBIO REAL: “Calculando o câmbio real pelo IPA, estamos num nível inferior ao de dezembro de 1998. No entanto, as exportações estão melhores. Somos mais exportadores hoje do que éramos naquela época com a mesma taxa de câmbio. Isso indica que a química do negócio exportador mudou”.

REFORMAS: “A produtividade e a competitividade da economia aumentaram com as reformas estruturais da década passada. A desvalorização fez, especialmente em 2002, as empresas optarem por investir no mercado externo. Elas fizeram investimentos pesados para se enquadrar nas exigências dos clientes. Assumiram um custo fixo alto para tornarem-se exportadoras e agora, mesmo que o câmbio recue, não vão voltar atrás”.

PRODUTIVIDADE: “O que vai ajudar verdadeiramente as exportações é o aumento contínuo da produtividade, que parou de crescer. Pode ser uma parada cíclica, mas pode ser o esgotamento do efeito das reformas dos anos 90. Por isso, é importante dar continuidade às reformas microeconômicas para que o país possa produzir com mais eficiência, especialmente no setor de serviços, onde a informalidade é imensa”.