OESP, 15.08.02

Fora do FMI!

ROBERTO MACEDO

 

O novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) é inegavelmente bem-vindo. Houve, contudo, claro exagero na euforia inicial com que sua notícia foi recebida, a ponto de o usualmente ponderado presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga, se ter excedido e falado de um acordo "sem custos".

Pelo empréstimo o Brasil vai pagar juros e há custos não mensuráveis, como o da humilhação de figurar com reincidência na lista dos socorridos pelo organismo. E que figura! Há gente que vê mérito em receber o que foi anunciado como o maior empréstimo da história do Fundo. É como vencer um campeonato de devedores já com a corda no pescoço. De qualquer forma, mesmo com esses e outros custos, o que se pode afirmar é que neste momento delicado o acordo traz benefícios que, líquidos dos custos que vêm com ele, excederiam outra conta, a dos custos de sua ausência, resultantes de uma crise cambial muito mais séria nos seus efeitos inflacionários e recessivos, que, no limite, poderiam provocar até mesmo instabilidade política.

À euforia inicial sucedeu um desapontamento igualmente criticável. O dólar voltou a subir e a Bolsa, a cair. Calma, pessoal. Não há como garantir que os efeitos do acordo virão em sua plenitude e imediatamente, mas antes de cair na ressaca é preciso dar um tempo para que operem. Uma das dificuldades é que o acordo não veio, como outros anteriores, com um compromisso paralelo da banca internacional no sentido de retomar as linhas de empréstimo e financiamento às empresas brasileiras, inclusive para operações de comércio exterior.

De uns meses para cá, essa fonte vem vertendo muito menos crédito, com as empresas sedentas aumentando sua ansiedade à procura de liquidez cambial e, na falta desta, pressionando a cotação do dólar. Na fonte do FMI o Brasil encontrou suprimento, mas as duas fontes não se comunicam necessariamente.

Vi as notícias de que o BC está quebrando a cabeça na busca de formas para passar recursos de uma para outra fonte. Como não lida com empresas, é preciso encontrar um canal para isso. É obra para a tal engenharia financeira, tão criativa como a engenharia usual, mas usualmente mais rápida do que ela.

Já na engenharia do acordo, chama a atenção a estrutura armada para a transição da política econômica quando o seu bastão for entregue ao futuro presidente. Logo ao começar seu jogo como tal, já enfrentará uma situação de xeque-mate. Se não aceitar os termos que o acordo prevê para 2003, correrá o risco de ver secada também a fonte do FMI, assumindo a faixa presidencial, mas enfaixando-se igualmente numa crise cambial, um péssimo começo. Deve aceitar, pois não vejo alternativa. Particularmente em 2003, no início do governo, não há espaço para manobras mais criativas nessas questões do aperto fiscal e das dívidas interna e externa.

Os candidatos podem prometer o que quiserem, mas quem vencer deverá recuar diante da realidade dos fatos. Aliás, para que a crueldade destes fosse aliviada, idealmente o acordo com o FMI deveria ter contemplado uma obra de engenharia política, com alguma malcheirosa "cláusula-bode", a ser retirada como concessão ao novo mandatário. Assim, este poderia anunciá-la como vitória sua, em face de promessas de campanha do tipo "negociar com maior soberania" ou "mudar o modelo". Ignoro se há essa cláusula. Se houve o cuidado de incluí-la, mesmo que implicitamente, a equipe que negociou o acordo mereceria muito mais do que elogios. Seria a consagração.

Passado ou não o sufoco atual, o Brasil precisa refletir, e muito, sobre suas humilhantes idas ao FMI, com resultados auspiciosos tão-somente no que evitam de males ainda maiores. O que elas demonstram é a crônica incapacidade de o País resolver de forma satisfatória seus problemas econômicos e financeiros, manifestados na acumulação de uma dívida pública asfixiante e numa escassez recorrente de divisas estrangeiras.

De tão recorrentes, as idas ao FMI vêm perigosamente adquirindo um preocupante tom de trivialidade. Até candidatos ditos de oposição já a aceitam sem maior reação. Não temos nem mesmo manifestações de maior peso nas ruas, como as que ainda se vêem na Argentina, bradando: "Fora FMI!"

Embora equivocadas e inúteis, revelam um inconformismo que aqui se revela exaurido. Ao contrário, com este último acordo certas reações eufóricas foram quase na linha de um "viva o FMI".

Há que retomar o inconformismo, corretamente direcionado não para protestar da forma tradicional contra o Fundo, mas para mobilizar energias, reagir e corrigir os males que nos têm levado a pedir o seu socorro. O coro de minha preferência é assim: "Fora do FMI!" Não é a primeira vez que afirmo isso, mas brados desse tipo só têm chance de pegar se exaustivamente repetidos.