O GLOBO, Rio, 22 de dezembro de 2004

 

Entrevista com o Ministro da Fazenda, Antonio Palocci (trechos)

 

‘Juro não cai no grito’

por  Míriam Leitão

O ministro Antonio Palocci acha que o ano que vem não tem como dar errado, porque o Brasil reuniu condições raras na economia. Para ele, o Banco Central (BC) acertou na política de juros: “Juro não cai no grito”. Palocci avisou que será proposta a autonomia do BC e defendeu uma agenda permanente de reformas. O ministro fulminou a proposta de elevação da meta de inflação e disse que só em março decidirá sobre o acordo com o FMI. Segundo ele, o Brasil está fazendo o clássico em economia e rejeitando as invencionices. Palocci aceita as críticas do seu partido, “são pressões por mais, melhor e mais rápido”, garante que o PT não perdeu seu projeto e que, “ao fim de quatro anos, este governo terá reduzido a pobreza e a desigualdade”.

Dr.Palocci, o senhor receitaria aumento do antibiótico para seu paciente quando a febre já está cedendo?

PALOCCI: Depende. Um organismo pode ter melhoras mas ter recorrência durante um tratamento. Às vezes, o tratamento tem que ser duro, mas o resultado compensa.

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As divergências com o PT sobre a política econômica já foram superadas?

PALOCCI: Espero que nunca sejam totalmente superadas, porque a divergência é de boa fé, é uma pressão por mais, melhor e mais rápido. Quem pede outra política tem o direito de fazê-lo, mas eu discordo.

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O ministro José Dirceu diz que nas discussões internas quebra o pau. Como é quebrar o pau com ele? Com o senhor deve ser mais fácil, mas com ele...

PALOCCI: (risos) Eu nunca tive uma discussão com nenhum ministro, nem com o José Dirceu, de maneira ríspida. Com “quebra o pau”, ele quer dizer que nós somos livres para o diálogo. Não me recordo de nenhuma discussão dura que tenha trincado relações. Às vezes, divergimos e não só na área econômica, na social também, nos rumos que devemos tomar. Mas é natural.


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O que o senhor achou do relatório da CPI do Banestado, particularmente da decisão sobre o ex-presidente do BC Gustavo Franco?

PALOCCI: Não li o relatório da CPI, mas da minha experiência interna na Fazenda, não vejo por parte dos meus antecessores — tanto no Ministério quanto no Banco Central, em particular o Gustavo Franco — práticas ilícitas. Não encontrei ilícitos aqui. As últimas autoridades que ocuparam as funções na área econômica tiveram grande empenho pelo país, muita dedicação em acertar nas coisas que fizeram pelo Brasil. Valorizo muito isso. Não tenho constrangimento em elogiar quem já esteve aqui, porque acho que foram pessoas dedicadas. Os procedimentos que observo, tomados aqui ou no BC, foram para corrigir falhas, aperfeiçoar os sistemas financeiro, bancário e fiscal do país. Não tenho críticas, tenho muitas divergências com opiniões dadas, medidas tomadas, mas que devem ser tratadas no campo das divergências. Não conheço o relatório, mas nesta fase final deve haver um cuidado, muita serenidade.