A Nova Economia chegou para ficar

Gustavo H. B. Franco

 

 

A Nova Economia conheceu seu apogeu justamente quando o Brasil mais levava a sério um programa de reformas que nos aproximavam mais e mais de um novo paradigma econômico, o da economia de mercado. Sempre fomos uma economia meio planificada, meio de mercado, portanto, completamente indecisa. Contudo, de uns anos para cá, as dúvidas foram rareando e nossa metade melhor começou a prevalecer. A soberania do consumidor, o império das maiorias, a meritocracia e a capacidade de competir com base na excelência se tornaram cláusulas pétreas de uma nova realidade em construção. Pouca gente percebeu que os novos valores trazidos pelo Plano Real eram exatamente os da Nova Economia. Sim, existe um mundo de novas tensões na economia brasileira, inovações revolucionárias, mudanças de paradigma, de toda maneira destruindo velhos tecidos e construindo novos. Em outras ocasiões, onde a inovação tecnológica foi avassaladora, se dizia que o Capitalismo se renovava através de um processo de “Destruição Criadora”. Nessa linha, nada de novo sob o Sol.

Adiante, neste artigo, o leitor terá três tópicos discutidos: o consumidor, o empresário e o novo capitalismo ensejado pela Nova Economia.

 

 

1. A Grande Rede e o império do consumidor

 

Pelo menos trinta anos se passaram desde o desaparecimento do lotação no Rio de Janeiro. Era pequeno e lembro das pessoas reclamando. O lotação obedecia a uma rota, como qualquer ônibus, mas não tinha ponto. Não andava muito devagar, mas as pessoas ficavam olhando as vitrines e o movimento nas calçadas. Era um fenômeno social, uma espécie de “La Rambla” de Barcelona e outros lugares (as pessoas indo e vindo, desfilando, só para se divertir em observar o outro), só que móvel e tremendamente útil como transporte coletivo. Uma loja interessante, uma moça bonita, ou qualquer “site” interessante podia produzir várias puxadas na campainha para o lotação parar.

O leitor que viveu essa experiência geralmente tem filhos e netos que se movem na Internet com inquietante naturalidade. O desenvolvimento tecnológico tem sido muito veloz. Eu mesmo conheci um senhor que era amigo de Santos Dumont, e que ficou emocionado ao ver o homem pisar na lua em 1968. Mas os que se sentem desajeitados com o novo ambiente virtual e o com “hype” em torno da “web”, e que não entendem essas expressões, eu tenho a dizer que a tecnologia muda, mas as leis econômicas continuam valendo. O mundo já viveu muitas revoluções tecnológicas transformadoras, com seus respectivos episódios de “exuberância irracional” e “destruição criadora”. Assim como muitos de nós já andaram de lotação.

Vamos tomar como exemplo as reconhecidamente extraordinárias implicações da construção de ferrovias no século passado. Os novos “caminhos de ferro” eram construídos  sobre territórios inexplorados, “criando” terras (do ponto de vista econômico, é claro), exatamente como hoje a “superestrada da informação” cria novos espaços econômicos prontos para serem ocupados, os “sites” e “portais”. O século XIX assistiu inúmeros episódios de especulação com terras vizinhas às novas vias, ou às que podiam ser criadas. Muitas dessas febres tinham lugar em volta das aglomerações urbanas florescendo a partir das estações e entroncamentos ferroviários. Eram centros naturais de negócios e de riqueza, como são hoje os “provedores de acesso”. São os lugares por onde as pessoas entram na “rua do comércio”, ou no “shopping center”, mas com uma diferença importante: o passageiro que pagou pelo lotação (o computador) pode parar onde bem entender.

Pois bem, para o passageiro, o acesso à rede, em si, pode parecer algo trivial e que deveria ser gratuito mesmo. Ledo engano. As propostas empresariais baseadas neste conceito, que não poderia deixar de ser muito popular, falharam, e por uma razão muito simples: a rede custa dinheiro para construir. Alguém tem de pagar. Se couber às companhias telefônicas o ônus de construir, elas terão todo o direito de cobrar acesso.

Outra coisa é cobrar entrada para o “shopping center”, para “La Rambla”, ou para os “chats” mais populares, vale dizer, para as “atrações” que o sujeito pode alcançar uma vez dentro da rede. Isso tem valor por que existe aglomeração, ou espetáculo, e as pessoas gostam de interagir. No princípio se imaginou que, com tanta gente circulando, a publicidade pode ser suficiente para que o consumidor não tivesse de pagar. Mas até prova em contrário, este é um outro engano.

Mesmo o lotação pode ser subsidiado, ou até grátis, desde que passe por certas rotas de interesse dos lojistas. Nos EUA casos foram registrados de provedores que davam computadores de brinde. Fazia sentido, pois o comércio, ao fim das contas, é tudo. A promoção seguramente não existe mais, e possivelmente a empresa também não.

Ademais, o consumidor, uma vez na rede, se torna soberano e caprichoso. Obedecerá a Lei da Oferta e da Procura apenas quando em seu favor, e será rigoroso ao extremo quanto aos “conteúdos” que deseja escolher. A estrada está repleta de lojas, de todos os tipos e formatos, todas disputando ferozmente a atenção do passageiro. São tantas que o passageiro reconhece a necessidade de ajuda não para escolher, mas para restringir a escolha. Por isso são incrivelmente populares os programas de “busca” que selecionam as rotas para o lotação passear. Ou seja, servem para excluir conteúdos, não para agregar.

Desta forma, a Grande Rede ofereceu algo novo a consumidores, no varejo e no atacado (B2B e B2C). É quase como carro particular, com motorista e de graça, para o passageiro escolher os caminhos. É a vitória da demanda sobre a oferta: o consumidor pode recusar absolutamente tudo, e selecionar no mais extremo detalhe o que pretende consumir. A Grande Rede, ao fim das contas, em vez de nos impingir uma nova cultura, eleva as possibilidades individuais e aproxima pessoas afins, o que não pode deixar de ser celebrado. 

 

 

2. A Nova Economia de Mercado na Califórnia e no Brasil

 

A explosão empresarial ensejada pela Internet tem várias explicações interessantes. Uma das mais aceitas é a de que as possibilidades de interação entre computadores subitamente se tornaram tão grandes que não cabiam mais dentro dos departamentos de pesquisa e desenvolvimento (P & D) das empresas do setor. Em função disso a indústria naturalmente “descentralizou” a P & D, ou seja, assistiu a um processo através do qual diferentes projetos foram espontaneamente se tornando novas empresas. Com isso, os gigantes do setor livravam-se do risco de investir numa quantidade muito grande de projetos, dos quais apenas um punhado teria chances concretas de funcionar.

Com efeito, a experiência mostra que tem sido altíssima a taxa de mortalidade das novas empresas atuando na Internet. Uma pesquisa recente sobre o funcionamento do Vale do Silício revela que em média apenas 6 de cada 1000 planos de negócios submetidos a financiadores de novas empresas na Internet efetivamente recebe financiamento. Destas, cerca de 60% em média vai à falência. As chances de uma nova empresa atingir o Graal, ou seja, conseguir uma oferta pública bem sucedida de suas ações é de aproximadamente 6 para um milhão. Para cada herói, milionário e capa de revista, o sub-produto é um pequeno exército de cerca de 166 mil fracassados.

E nos dias de hoje, a novidade são os ex-milionários que conseguiram sobreviver ao tombo do NASDAQ.

Mas independente do que ocorra adiante com o NASDAQ, será que vamos assistir no Brasil nos próximos anos uma mortalidade como acima descrito ? Terá a nossa recém descoberta economia de mercado o sangue frio necessário para emular esse darwinismo californiano ? Será verdade que já aconteceu e sequer notamos ?

O fato é que nada disso parece tão exótico quanto seria há cinco ou dez anos passados. Nos últimos cinco anos em especial o Brasil se transformou em função da combinação de abertura, estabilização, privatização, enfraquecimento do Estado, democracia, desregulamentação, soberania do consumidor e responsabilidade fiscal.

Uma das conseqüências mais imediatas dessas mudanças foi a de tornar a competência empresarial uma questão de sobrevivência e boa parte (ou talvez a pior parte) do mundo empresarial achou que isso era um castigo que lhes impunha o governo, que foi açodado na abertura e descuidado com a política cambial. Como se para os favoritos do Estado os favores fossem a regra, mas para os inimigos restasse apenas o mercado.

Nada mais normal que, com o tempo, as empresas verificassem que a excelência empresarial era um requisito natural para o sucesso em uma economia de mercado. Nova e velha economia, sem distinção. Como de fato se observou. E graças às mudanças de atitude para com as reformas o Brasil vive uma revolução dupla: a primeira, por muitos anos retardada e ainda pela metade, é a descoberta da economia de mercado. E a segunda, bem menos avançada, é a disseminação da Internet e de sua cultura. Dificilmente a segunda seria possível sem a primeira, como se pode demonstrar lembrando que a revolução tecnológica anterior à de hoje - quando disseminou-se o micro computador, o processador de texto e as planilhas eletrônicas - nos pegou com um governo que não acreditava em mercados e por isso inventou uma bobagem chamada “reserva de mercado”, em conseqüência da qual, atrasamos em uma década ou mais a nossa entrada do Brasil no mundo digital.

Desta vez, felizmente, não vamos perder o bonde. A privatização das telecomunicações e das concessões para telefonia celular foi uma dura batalha que nos deu a senha de acesso à Nova Economia. Novas empresas estão surgindo a todo momento e a mortalidade não foi pequena depois que o NASDAQ desabou. Já tivemos aí um teste importante para as novas atitudes, e pouco se viu de “perdedores” reclamando do governo. É um hábito antigo, difícil de abandonar. Num país cuja tradição é de empresários acunhadados com o Estado, o fracasso nunca é privado, mas sempre culpa do governo. Mas na Nova Economia isto não se observou, por enquanto, o que é um ótimo começo

 

 

3. Esqueça a dependência, pense em conectividade

 

Muitos especialistas norte-americanos em questões geo-políticas acham que a China jamais vai deixar a Internet entrar em suas fronteiras. A Grande Rede oferece, afinal, o caos e o esplendor da economia de mercado em sua forma mais exacerbada. É a informação e a comunicação sem obstáculos, a interação entre as pessoas e a formação de mercados, tudo isso sem autoridades para atazanar os envolvidos e limitar a livre circulação de idéias e de negócios. Uma sociedade autoritária não pode permitir que esse mecanismo possa fluir sem solapar suas próprias bases de sustentação. Para começar, a Internet não comporta censura: como pode um regime não democrático subsistir sem constranger o direito de ir e vir e à informação, justamente o que a Internet permite a qualquer um ?

Mas não se trata apenas de informação, mas também da serventia que ela tem para a economia. A instituição básica da economia capitalista é o mercado, que nada mais é que um lugar, real ou virtual, de troca de informações que, uma vez processadas, ensejam transações. A Internet torna muito mais eficiente a infra-estrutura de todos os mercados. Mercados que não existiam - por que os custos de se coletar e processar as informações pertinentes eram proibitivos - começam a emergir em toda parte. Mercadorias “sem liquidez”, como bicicletas usadas e espaços em caminhões, subitamente se vêem transacionadas em mercados virtuais que aparecem em toda parte, com a facilidade de uma sala de “chat” e a agilidade de uma bolsa de valores. Mercados imperfeitos e cheios de intermediários, corretores e atravessadores, começam a funcionar melhor, pois a Internet nos livra dessas “impurezas” interpostas entre compradores e vendedores. A indústria fala em “portais verticais”, B2B, e coisas desse tipo, mas o substrato econômico é um só: mercados que otimizam a alocação de recursos e fazem a produtividade crescer para todos.

A conectividade ensejada pela Internet dá origem a uma espécie de hipercapitalismo que acelera a velocidade das transações, da tecnologia e da circulação de informações. Não é de hoje que se fala em uma Aceleração da Historia. Tudo está acontecendo mais rápido, e por isso mesmo qualquer buraquinho no caminho vai fazer o carro sacudir mais. A volatilidade tem tudo a ver com a velocidade. As piruetas do NASDAQ não devem ofuscar as reais transformações de nosso tempo. A Internet poderá democratizar a China, e também torná-la uma economia de mercado, numa velocidade estranha aos hábitos dos chineses, os quais, conforme a velha piada, acham que a Revolução Francesa é um evento ainda muito recente para uma interpretação definitiva.

É interessante notar que há pouco mais de uma década o mundo estava dividido entre superpotências hostis prestes a se destruir. Seus diferentes sistemas econômicos eram separados por muros de arame farpado, e pela periferia, muitas nações, ao mesmo tempo em que perseguiam gente, também perseguiam estratégias econômicas de auto-suficiência e de industrialização à custa da inflação. Durante esses anos de Guerra Fria e estranhamento entre países as super potências se falaram algumas vezes naquele velho telefone analógico de cor vermelha, e tiveram o bom senso de não apertar os botões errados em momentos de nervosismo. A periferia, por sua vez, foi progredindo mas gerando, em alguns casos, tanta desigualdade que o próprio desenvolvimento ficou comprometido.

Mas as coisas foram mudando numa velocidade espantosa. O Império Soviético desintegrou-se de forma trágica, enquanto que a China luta para fazer uma transição gradual na direção de um mundo que não comporta mais muros, segregações e preconceitos. Numa outra oitava, o Brasil se esforça para fazer reformas nesta mesma direção, ou seja, em vez de autonomia, integração. Em vez da inflação e do Estado como motores do desenvolvimento, a excelência empresarial. E em vez de Dependência, o problema passa a ser Conectividade, isto é, assegurar que a nação esteja ligada a esta imensa rede em que se tornou a economia mundial e que não será deixada para trás.