Folha de São Paulo

07/06/2000

LUÍS NASSIF

Academicismo e jornalismo


A réplica ponderada de
Gustavo Franco às críticas que aqui formulei contra ele permite uma boa discussão sobre os rumos e limites da polêmica jornalística.
Rememorando:
1) alguns estudos demonstraram que investimentos estrangeiros em áreas que não geram exportações (infra-estrutura, por exemplo) podem, a médio prazo, produzir fluxo negativo expressivo de capital. Dada a fragilidade das contas externas brasileiras, apareceram propostas visando restringir o investimento estrangeiro aos setores que geram exportações;
2) em sua crítica a essa tese,
Franco argumenta que investimentos estrangeiros, ao aumentar a produtividade global da economia, ajudam a gerar divisas, ainda que indiretamente. Portanto não deveria haver limites nem direcionamento. Aproveitou para lançar ataques destemperados aos defensores da idéia;
3) centrei minhas críticas a
Franco em dois pontos. Um, nesse estratagema retórico de levantar apenas um ângulo genérico da questão e não lhe conferir a devida ponderação;
4) em princípio, todo investimento gera aumento de eficiência e de produtividade, mas a que custo? Para a tese de
Franco ser correta, teria que haver a comprovação de que o investimento estrangeiro em infra-estrutura é de tal forma mais produtivo que o investimento nacional que compensaria o fluxo negativo de dólares. Se esse ponto não puder ser comprovado, a tese de Franco não se sustenta. Pedi apenas o básico, não?
5) em sua réplica,
Franco alega, primeiro, que investimentos têm perpetuidade, não têm amortização, não comportando, portanto, comparação com empréstimos externos. Maravilha! Financiamento é financiamento, investimento é investimento, mãe é mãe e pai é pai. Mas fugiu ao que interessa: o fluxo de caixa, quantos dólares entram, quantos dólares saem em cada uma dessas operações. Supondo um deflator de 5% ao ano, um financiamento de 15 anos, a 11% ao ano, passaria a ter fluxo negativo a partir do 13º ano. Um investimento direto em setor com 20% de rentabilidade passaria a ser negativo a partir do sexto ano (sete anos antes), mesmo sem amortização. Ao final de 15 anos, um financiamento de 100, depois de pagos os juros e a amortização, resultaria em um fluxo negativo de 57 (valor presente). Um investimento direto de 100, a uma taxa de retorno de 20% ao ano, resultaria em um fluxo negativo de 108 _quase o dobro. Portanto, independentemente de não haver amortização, investimentos geram fluxos perpétuos de saída de dólares e é essa a questão a ser analisada, dentro de uma expectativa de longo prazo do balanço de pagamentos;
6) mas
Franco contesta essa exigência de que a polêmica jornalística tenha que se basear em fundamentação científica. Sustenta que o objetivo da polêmica jornalística é persuadir a opinião pública. E investe brilhantemente contra o saber acadêmico e as academias, "que debatem os detalhes mais minuciosos de técnicas estatísticas e matemáticas que só eles conhecem e sentem-se bem-sucedidos entre seus pares apenas quando publicam seus trabalhos em revistas acadêmicas". Concordo, mas quem é professor da PUC-RJ é ele, não eu.
Longe de mim propor que a polêmica jornalística tenha o ranço de uma tese acadêmica. Mas um pouco de profundidade não afoga ninguém. O mínimo que se espera do exercício da retórica é a comprovação de que as premissas utilizadas são verdadeiras e que a conclusão a que se chega é correta. Se não, melhor assistir a briga de torcida organizada.
É o que ocorreu na discussão sobre a política cambial anterior. Os defensores da velha política esmeravam-se em apontar todas as suas virtudes e passar ao largo de todos os seus riscos. Por certo considerando que análise custo/benefício é frescura acadêmica.
Abusando ou não dos adjetivos, o professor
Franco tem conhecimento e inteligência para produzir análises mais sofisticadas que essas.