Folha de São Paulo

30/05/2000

LUÍS NASSIF

A retórica do dedão pisado

 

Uma das piores formas de tentar fazer ciência é recorrer a análises generalizantes, sem se preocupar em se debruçar sobre os fatos em si. Cria-se o slogan e adapta-se o fato a ele. Os fatos até podem mudar, mas os slogans permanecem porque são isso: slogans.
Em geral, a polêmica é a forma de discussão mais enriquecedora, porque comporta o contraditório, o exercício de cada parte levantar um argumento, reconhecer os argumentos consistentes da parte contrária e apresentar contra-argumentos consistentes àqueles com os quais não concorda.
Na guerra de slogans, isso não ocorre. A discussão fica difícil porque todo esforço intelectual consiste em desenvolver teses que permitam explicar que aquilo que você está vendo não é bem aquilo que você está vendo.
É nisso que o ex-presidente do Banco Central
Gustavo Franco vem gastando sua reconhecida inteligência e capacidade polêmica. É um desperdício para o país.
Tome-se sua última coluna para o "Estadão". Nela, ele tenta rebater fatos relacionados com a dívida externa brasileira. Há uma questão técnica concreta a merecer estudos e análises de especialistas.
O Brasil está com um fluxo negativo no balanço de pagamentos - fruto da política cambial adotada no período 1994/1998, da qual
Gustavo foi o principal porta-voz.
Há dinheiro externo entrando no país. Esse dinheiro entra uma vez, depois gera um fluxo de saída, na forma de remessa de lucros, royalties e outros serviços. Quando o investimento externo ocorre em setores "comercializáveis" (que geram exportações ou substituem importações), o que se ganha na balança comercial compensa o que se perde no fluxo financeiro ou de serviços. Quando o investimento é em setores "não-comercializáveis" (saneamento, bancos, infra-estrutura de maneira geral), o fluxo de dólares é amplamente negativo e em poucos anos supera qualquer entrada inicial de recursos.
Recentemente, foram produzidos trabalhos sobre o tema, com números e séries defendendo a tese de que o capital estrangeiro deveria ficar restrito aos setores "comercializáveis", para não desequilibrar ainda mais o balanço de pagamentos.
No entanto qual é a resposta do professor
Gustavo a esse trabalho? Ofensas de todo tipo, falando de economistas velhacos, empresários malandros e invocando até a "destruição criadora" de Schumpeter, como álibi para a destruição inútil provocada por sua política cambial.
O truque retórico mais usado por ele é levantar argumentos conceitualmente corretos - que o investimento estrangeiro nesses setores aumenta a produtividade geral da economia - e não lhes conferir a devida ponderação, em confronto com as contra-indicações.
É evidente que investimentos em eletricidade, telecomunicações, portos etc. trarão mais competitividade à economia. Mas, para não ficar no jogo de slogans, que ele tanto abomina nos economistas de esquerda, o professor
Gustavo teria que se estender em considerações um pouco mais profundas que essas generalidades. Por exemplo, comprovar científica ou empiricamente que investimentos estrangeiros nessas áreas aumentam muito mais a produtividade do que investimentos brasileiros nas mesmas áreas. Ou mostrar, por meio de pesquisas e estudos matemáticos, o impacto positivo desse aumento de produtividade sobre as contas externas, para rebater a tese do aumento dos desequilíbrios externos.
Esse estilo de retórica lembra outra "boutade" dele e do economista Mailson da Nóbrega, para tentar encontrar virtudes na política cambial anterior, depois que foi implodida pelo mercado: "Foi bom para ensinar as empresas brasileiras a ser competitivas".
Pode-se utilizar esse mesmo argumento para encontrar a parte boa de um acidente doméstico - como, por exemplo, prender o dedo na porta. É bom porque ensina a tomar cuidado na próxima vez e é um bom treino para conviver melhor com a dor.