Rui Barbosa e o Plano Real

Por Luís Nassif

28/5/2005

Aproveitei o feriado de Corpus Christi para vir de novo a Poços de Caldas. Perdi a procissão. Aliás, nem fui conferir se os colégios continuam enfeitando as ruas de flores, tal e qual na minha infância.

A cidade mudou um pouco, mas definitivamente não é a mesma. Passei o fim de semana lendo sobre o “Encilhamento”, o grande jogo especulativo que matou a primeira grande chance que o país para se desenvolver, no alvorecer da República, no início do século 20. Há tempos venho me dedicando a levantar dados, comparando os dois períodos. É impressionante os pontos em comum.

Um dos fatos que mais me chamou a atenção foi o papel dos formuladores de política econômica – Rui Barbosa, no início da República, André Lara Rezende, Malan, Arida, Gustavo Franco, Edmar Bacha com o Plano Real.

Acompanhei sua carreira desde o Plano Cruzado. Recém chegados de seus doutorados no exterior, alguns muito jovens, como Arida e Rezende, outros mais velhos como Bacha, havia uma confiança genuína de que trariam o conhecimento necessário para debelar a inflação e lançar o país rumo ao futuro sempre aguardado.

Em ambos os momentos – no “Encilhamento” e no Plano Real--, tinha-se tudo nas mãos para lançar o país rumo ao futuro: uma economia em franca recuperação, saldos comerciais robustos, a economia mundial mudando, um mercado interno que começava a explodir, por conta da inclusão de milhões de pessoas. Tudo foi jogado pela janela com a apreciação do Real e com a autorização para o livre fluxo de capitais.

No ano passado fiz um conjunto de colunas tentando entender a razão que leva um grupo de pessoas a um erro tão bisonho. Qual teria sido a fundamentação técnica, o sofisma teórico em que se enredaram?

E volto ao “Encilhamento” e a Rui Barbosa. Entre os livros que trouxe, veio a monografia de Gustavo Franco, escrito no início dos anos 80, quando ele sequer imaginava que um dia ajudaria a definir a política econômica do país. No livro, há uma admiração incontida pelo Conselheiro Mayrink e por Rui Barbosa: Mayrink, um financista que Franco equipara ao Barão de Mauá; o segundo, o primeiro Ministro da Fazenda da República.

Rui implementou uma reforma monetária, tal e qual os Cruzados com o Plano Real, e definiu um modelo de privilégios que permitia a Mayrink o monopólio da emissão de moeda, além de concessão de terras para colonização e de serviços para erguer empreendimentos industriais. O álibi para legitimar o presente era o de que o novo banco permitiria reduzir a dívida pública, ao absorver títulos por taxas menores, em troca daquela montanha de privilégios.

Quando foi revelado o projeto, o Ministro da Agricultura Demétrio Ribeiro berrou. Alertou que os privilégios a Mayrink eram injustificáveis, que os novos bancos iriam administrar o Estado pelo governo, que a opinião pública seria contrária à nova lei. Alertava que o novo banco absorveria todas as estradas de ferro, impediria a concorrência dos pequenos empreendedores, e que traria necessariamente a queda do câmbio.

A argumentação técnica de Rui prevaleceu sobre o bom senso de Demétrio. Nos meses seguintes, Rui continuaria cobrindo Mayrink de privilégios. Pouco tempo depois explodiu o “Encilhamento”, deixando fome, miséria, uma dívida explosiva, um câmbio descontrolado, e um futuro que ficou na geladeira por três décadas.

No livro, Gustavo absolve Rui. Toda sua tese era para comprovar que, se existisse um Banco Central para impedir a volatilidade do câmbio, a reforma de Rui daria certo.

Em 1994 criaram-se novos privilégios e havia o BC. Ao final de dez anos, tinha-se um país quebrado e sem futuro à vista. A dívida pública criada pela política dos economistas do Real, de apreciação do câmbio, matou o futuro dessa e das próximas gerações. Tal qual Rui Barbosa, todos saíram ricos, associados aos financistas que –ao contrário do início do século—não quebraram.

Em casa, coloco Villa Lobos para espantar o desânimo. Seu “Concerto”, a “Suíte Brasileira”, os Choros e Prelúdios vão me acendendo a esperança de que este país ainda vai vencer.