Folha de S ão Paulo, domingo, 26 de junho de 2005

LUÍS NASSIF

A madura idade

Recebo a seguinte carta de Gustavo Franco, 15 anos mais velho que o templário da PUC, dez anos mais velho que o economista do Real:
"Escrevo para lhe agradecer pela crônica de domingo, "O último guerreiro de Vargas", a propósito de Guilherme Arinos, meu pai".

"Meu pai é um homem extraordinário e que jamais se preocupou e mesmo evitou a notoriedade ou o reconhecimento, jamais quis se apropriar do legado do "Velho Getúlio" ou retirar qualquer espécie de vantagem do relacionamento privilegiado que tiveram. Sobre meu pai, Helio Fernandes disse, certa vez, que "foi o único que serviu a Vargas sem dele se servir"."

"Meu pai tampouco fez alarde de qualquer de suas contribuições pessoais ao "legado" do Velho, pois a ele nunca importou a autoria, mas a contribuição em si, e principalmente o projeto maior. Grande lição, essa. A ele sempre importou, mais que tudo, o desejo de servir ao Brasil, ao próximo, ao menos favorecido, sem contrapartida, e foi isso o que fez a vida toda, como homem público, como empresário bem-sucedido e em suas inacreditavelmente múltiplas atividades de benemerência."

"Arinos é sempre lembrado nos aniversários da fundação do BNDES (hoje é único remanescente da primeira diretoria) e, em 1983, durante a cerimônia, teve o prazer de ver seu único filho vencer o prestigioso concurso anual de teses de mestrado com uma monografia sobre os primeiros anos da República, que tem sido objeto da várias crônicas suas nas últimas semanas."

"Mais tarde, Arinos viu seu filho ir para o mesmo Ministério da Fazenda em que serviu mais de 40 anos antes e depois para o Banco Central, que, em sua época de funcionário do Banco do Brasil, era apenas um plano. Arinos viu sua família crescer e o Brasil se transformar e assim adquiriu mais clara a consciência de seu tempo, da passagem do tempo e do significado do tempo. Apenas os homens realmente extraordinários, e que têm a benção de viver tão intensamente durante tanto tempo, adquirem essa perspectiva sobre o que é realmente importante na vida."

"Arinos jamais discutiu comigo sobre os rumos do Real, nem mesmo quando interpelou diretamente o presidente Fernando Henrique quando este declarou que poria fim à Era Vargas. Era apenas uma frase de efeito, FHC disse-lhe pessoalmente, e ele, no fundo, sabia, tanto que Arinos continuou PSDB de carteirinha, membro do diretório carioca."

"Arinos nunca viu contradição entre os imperativos de política econômica dos anos recentes e as conquistas da Era Vargas. A poeira do tempo, ele bem sabe, é fundamental para eliminar as emoções, a espuma e a verborragia sempre a turvar o que é verdadeiramente importante e duradouro nas querelas sobre política econômica. As lições e o legado do "Velho Getúlio", para mim, sempre estiveram misturados com as lições de meu próprio pai. Se eu estava em sintonia com ele, como dizer que estava atacando o legado que ele preservava?"

"Arinos já viu de tudo. Sabe que existem muitas maneiras de servir ao Brasil, muitas formas sinceras de nacionalismo e que existem muitas fórmulas diferentes para "um grande homem". E sabe que esses cânones mudam com o tempo. Todas essas fórmulas, contudo, devem caber dentro dos ideais de generosidade e desprendimento que aprendi em casa, com ele, e que pareciam vir, por transitividade, do "Velho Getúlio". Não são ideais diferentes dos que vi em FHC, com todas as variações de personalidade e circunstância, ou dos que vislumbro, onde é possível enxergar, no presidente Lula. Felizmente, o Brasil tem muitos grandes homens, muitos dos quais pensam como nós, e muitos outros discordam de cada palavra. E viva a diferença."

"O que importa, e nos une ao fim das contas, é a lealdade às nossas idéias, a honestidade intelectual e o desejo de servir ao Brasil, sem nada em troca, e freqüentemente apenas com os ônus provocados pelos descontentes e ressentidos ou apenas com a incompreensão e indiferença até mesmo dos beneficiados."

"Aceite um abraço muito especial."

"Gustavo H. B. Franco."