Em sua apresentação do livro de Gustavo Franco A economia em Pessoa, Alberto da Costa e Silva escreveu que nessa obra não somente o poeta Fernando Pessoa se revelava um arguto analista econômico, como o economista Gustavo Franco se revelava um fino comentador literário. Agora Franco volta a surpreender. Escrevendo sobre o “olhar oblíquo do acionista”, o autor demonstra possuir um olhar tão oblíquo quanto o do bruxo do Cosme Velho, pois conseguiu descobrir em várias crônicas de Machado de Assis um leitmotiv que escapou a críticos literários dotados de visão mais retilínea. Se considerarmos as crônicas reproduzidas no livro como uma espécie de narrativa distribuída em 39 capítulos, o enredo é constituído em sua maior parte pela preocupação machadiana com os acionistas, suas assembléias, suas deliberações e seus dividendos. O sujeito da história é Machado, um Machado mais oblíquo que nunca, pois finge ver o Brasil e o mundo na perspectiva de uma das figuras mais equívocas da modernidade – a do acionista. Em geral, Machado o apresenta como alguém completamente passivo. Quando comparece às assembléias, é à força arrastado pelos empregados para perfazer o quorum regulamentar. Seu interesse único está no recebimento dos dividendos. Se a empresa paga os dividendos, os “divisores” que dirigem a empresa estão livres de fazer o que quiserem. Reconhecemos no acionista machadiano a figura do rentista radicalmente afastado do mundo do trabalho, o homem que no sentido literal vivia de rendimentos – os proporcionados pelos escravos, pelos aluguéis, pelas apólices. Em outros momentos, o acionista de Machado é um canalha, um grande ou pequeno aproveitador que embolsa rendimentos indevidos e faz fortuna ou se arruína durante a “bolha” do Encilhamento. O leitor não pode deixar de reconhecer nessa figura um dos maiores personagens da galeria machadiana, também um rentista, Brás Cubas. O narrador-romancista, que denuncia em Memórias póstumas o cinismo da classe dominante brasileira e usa para isso o artifício de falar na primeira pessoa, fingindo identificar-se com um dos seus representantes, é semelhante ao narrador-cronista que assume como próprio o cinismo e a falta de escrúpulos do tipo social que ele critica, escrevendo também na primeira pessoa. Em suma, o livro de Gustavo Franco é um deleite, e um deleite duplo. É bem escrito, bem argumentado e abre trilhas para uma nova compreensão de Machado de Assis. E oferece, como bônus, uma oportunidade para se ler ou reler algumas das melhores crônicas de Machado, como a de 4 de novembro de 1900, que fecha o volume, onde aparece uma das obras-primas do nosso Bruxo, uma passagem admirável  sobre a morte do sineiro da Glória.

 

Sergio Paulo Rouanet