Valor Econômico

06/12/2007

 

O investidor olha, mas não enxerga

Por Olga de Mello, do Rio
06/12/2007

"A Economia em Machado de Assis" - De Gustavo Franco.

 

 

Gustavo Franco: Machado de Assis, que não entendia de economia, fez o mau negócio de comprar títulos do Tesouro Nacional, que o governo jamais resgatou

 

Jorge Zahhar, 272 págs. R$ 44

 

 

 

A economia já rendeu literatura que encanta os interessados no tema, mas os literatos, de maneira geral, pouco apreço demonstraram pelo assunto, exceto como observadores do cotidiano. Um deles foi Machado de Assis, que, se demonstra pouca intimidade com os fenômenos econômicos, pôde comentá-los com a mordacidade habitual em prosa - e até em versos - , misturando personagens reais aos literários nas crônicas publicadas pelo jornal "Gazeta de Notícias" entre o fim da década de 1850 e o começo do século XX.

 

O economista Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central, selecionou 39 desses textos para "A Economia em Machado de Assis - O Olhar Oblíquo do Acionista" (Jorge Zahar, R$ 44), que apresentam várias passagens das transformações verificadas na economia brasileira entre 1883 e 1900, período que compreendeu o fim da escravidão, a queda do Império e o início da República.

 

Na seqüência das crônicas, duas delas em forma de poesia, Franco percebeu um enredo - em capítulos - sobre um mesmo personagem, o acionista, alguém que vive de renda e não nutre qualquer entusiasmo por assembléias, interessado que está apenas em saber quanto obterá em dividendos. Além de apresentar a visão do escritor sobre uma época turbulenta da economia e da política no Brasil, Franco reuniu algumas das histórias com esse personagem.

 

"O acionista de Machado de Assis não é o investidor dos dias de hoje, que pratica a governança corporativa. Ele comparece forçado às assembléias e é, basicamente, um súdito do imperador, que entende que o governo é quem manda na política econômica, que o Estado paga o dividendo. Portanto, qual é o sentido em participar daquelas reuniões para falar sobre assuntos que, no fim, serão definidos pelo governo? Esse personagem aparece, com toda a ironia de Machado, para desnudar a influência do Estado sobre todos os negócios existentes no país. O acionista se assemelha a outra figura de diversas crônicas de Machado, um relojoeiro aposentado inconformado com o ritmo acelerado do tempo desde o fim da Guerra do Paraguai. Sob o relojoeiro estava o escritor, que também emerge na persona do acionista aturdido com a capitalização do Brasil", diz Franco.

 

Entre os assuntos abordados por Machado estão alguns que nunca deixaram de freqüentar o cotidiano dos brasileiros, temas que são da economia de todos os tempos, como a variação dos preços que fazem o custo de vida e o sobe-desce da taxa de câmbio. As imagens literárias e a ironia característica do escritor pontuam diversos textos. Na crônica de 16 de maio de 1885, por exemplo, Machado trava um diálogo com os "impostos inconstitucionais de Pernambuco", cobrados pela província apesar de proibidos pela Constituição: "Conheceram-me logo, eu é que, ou por falta de vista, ou porque realmente eles estejam mais gordos, não os conheci imediatamente".

 

Três anos depois, a mudança social provocada pela entrada de ex-escravos no mercado de trabalho rende a história do homem que, durante uma festa, dias antes da Abolição, alforria um escravo apenas para que seja registrada sua preocupação humanista, já que pretende seguir carreira política.

 

Ao discutir a necessidade de uma reforma monetária, em março de 1889, Machado sugere que o Brasil tenha uma moeda própria, com um nome ligado ao imaginário nacional: o cruzeiro. "Imagino até o desenho da moeda; de um lado a efígie imperial, do outro a constelação...". As falências bancárias são encaradas filosoficamente: "Não há bancos eternos. Todo banco nasce virtualmente quebrado; é seu destino, mais ano, menos ano", comenta o escritor, referindo-se ao fim das atividades do Banco Rural, em novembro de 1900.

 

"Ele não era apenas o maior romancista brasileiro e um dos grandes gênios da literatura mundial, mas um mestre da crônica, que envolve o leitor, sempre ressalvando seu desconhecimento sobre finanças, mas contextualizando com os assuntos daquela semana. Durante quatro décadas, ele publicou crônicas semanais, assinadas ou sob pseudônimo. A vida financeira tinha, obrigatoriamente, que se tornar assunto. A intenção de suas reflexões era agradar ao público com reflexões sobre aquele capitalismo novo que surgia, a necessidade de modernização do país e o provável retorno ao conservadorismo que ele antevia. É um enredo literário, desenhado com seu estilo espetacular, sempre usando um parágrafo inicial que contextualiza a situação, ligando a temas paralelos que falam do momento do país, geralmente com muita elegância e sarcasmo", diz Franco - que há cerca de um ano lançou uma coletânea de textos de economia assinados por Fernando Pessoa em 1926. O poeta português, ao contrário do romancista brasileiro, demonstrava ter certo conhecimento de economia.

 

"Machado se apresentava como leigo no assunto. Seu testamento mostra que havia adquirido títulos do Tesouro Nacional. Um mau negócio, pois o governo jamais resgatou tais títulos", afirma Franco.