Desmascarando o Mercosul 

Maria Clara R. M. do Prado

Valor 10.05.07

 

 

O comércio mundial de produtos movimenta hoje soma considerável de recursos, algo em torno de US$ 8,5 trilhões por ano. Um valor astronômico, quando se compara aos US$ 80 bilhões que representavam o valor das trocas comerciais no início dos anos 50. 

 

 

O significativo crescimento do comércio, impulsionado pelo desmantelamento do bloco político que se escondia por detrás da "cortina de ferro" e pela conseqüente liberalização dos fluxos internacionais, não vai parar por aqui. Continuará sendo puxado pela pujança econômica dos grandes "emergentes", uma realidade já considerada com proveito por alguns dos mais importantes protagonistas do cenário comercial.

 

 

Não à toa, a União Européia busca amarrar um acordo comercial com os países da Asean - grupo formado por Brunei, Cambodja, Indonésia, Laos, Malásia, Myanmar, Filipinas, Cingapura, Tailândia e Vietnã. Vai em busca de vantagens que ajudem a dar mais vigor à economia européia.

 

 

Enquanto isso, o Mercosul patina no mesmo lugar em que sempre esteve. Não só não consegue dar andamento aos acordos extra-regionais de livre comércio como sequer tem sido capaz de equacionar as enormes divergências internas que só tendem a se agravar com a entrada da Venezuela no bloco.

 

 

Ainda se alimenta a ilusão, em alguns grupos da esfera do governo, sobre a viabilidade no curto prazo de um acordo entre o Mercosul e a União Européia (UE) nos termos pretendidos da redução das barreiras sobre o comércio dos produtos agrícolas. Já lá se vão mais de doze anos desde a solenidade de pompa que enfeitou o Palácio de governo de Madrid, em dezembro de 1995, quando os representantes do Mercosul assinaram com a UE um acordo-quadro.

 

 

Na época, notou-se que acordo-quadro significava exatamente o que o nome denotava: algo que tem moldura, mas não tem conteúdo. Pouco se avançou desde então e o acordo nunca saiu das intenções.

 

 

E, diga-se, cada vez isso se torna mais difícil. De um lado, a UE passou a adotar uma posição mais pragmática, na busca de acordos mais simples e imediatos com vistas a ampliar sua presença no comércio internacional.

 

 

De outro, sobressai o esfacelamento do Mercosul. Por mais que a retórica do Itamaraty se empenhe em manter acesa a chama do bloco regional que reúne Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Venezuela, o fato concreto, objetivo e irrefutável é o de que não apenas os "parceiros" não se entendem, como o Mercosul passou a ser visto hoje, nos principais centros produtivos do país, como um verdadeiro peso morto. Mais atrapalha o comércio externo brasileiro do que ajuda.

 

 

Sinal claro de descompasso foi emitido esta semana, em Montevidéu, durante a instalação do parlamento do Mercosul. Ontem, ao falar na reunião do Conselho Superior do Comércio Exterior da Fiesp, recém-chegado do Uruguai, o deputado João Herrmann Neto (PDT-SP) foi extremamente crítico. 

 

 

 

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O Mercosul tornou-se um peso morto para o Brasil: esta é a verdade nua e crua e a entrada da Venezuela é um ponto a mais de dificuldades.

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Condenou, entre outros aspectos ligados à representatividade, a forte ideologização que tomou conta daquele fórum. "Tentei submeter uma moção de insatisfação contra a falta de liberdade da imprensa na região, um dos preceitos a serem preservados dentro do bloco como consta do texto do Tratado de Ouro Preto (que criou o Mercosul) mas fui derrotado", disse ele, adiantando que decidiu renunciar ao cargo de membro do parlamento do Mercosul.

 

 

O encontro foi dominado por teses xenófobas, populistas e nacionalistas, uma indicação do tipo de ideologia que parece predominar entre a classe política dos países do bloco e que fatalmente redundará em brigas e desarmonia, ao invés de consenso e conciliação, com cada um puxando para o seu lado. 

 

 

Aliás, exemplos não faltam. Tem o caso mais dramático da briga entre argentinos e uruguaios em torno da instalação de uma usina de papel e agora já se prenunciam problemas entre o Paraguai e o Brasil com respeito a Itaipu e os preços da energia ali gerada.

 

 

O problema é que enquanto o Brasil estiver amarrado ao Mercosul não poderá andar para lado nenhum. Não consegue tirar proveito de um mercado regional em virtude das diferenças internas, nem pode avançar em seus interesses alinhavando acordos bilaterais com outros parceiros. 

 

 

"Há setores de produção no Brasil mais vulneráveis ao câmbio e à agressividade comercial da China que poderiam se beneficiar de acordo bilateral entre o país e os EUA, mas esta possibilidade hoje não existe", comentou uma das coordenadoras do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), Maria Helena Tachinardi.

 

 

Os casos mais afetados pela impossibilidade de negociação direta com outros países são os setores têxtil e de calçados.

 

 

O Mercosul tornou-se um peso morto para o Brasil. Esta é a verdade nua e crua. Ao invés de soluções, só representa problemas. A entrada da Venezuela é um ponto a mais de dificuldades.

 

 

Mas a morte de um acordo pode demorar muito tempo para ser reconhecida. As relações políticas normalmente se impõem sobre a dureza fatos que se quer mascarar. Uma mostra isso são os acordos bilaterais que o Mercosul tem negociado aqui e ali, todos muito tímidos, sem maior expressão. São entendimentos via de regra baseados em listas de preferência tarifária como o que se alinhava com a Índia, em torno de uma cesta que se restringe a cerca de 700 produtos.

 

 

No mundo em que o comércio flui na mesma intensidade dos fluxos financeiros - caminham, aliás, lado a lado - o papel das negociações entre grandes blocos de livre comércio, na linha do multilateralismo, parece perder importância. A rigor, uma clara demonstração do novo paradigma que busca privilegiar os entendimentos bilaterais, é o desinteresse por maiores avanços das negociações no âmbito da Rodada Doha.

 

 

Um entendimento mais substancial fica ainda mais distante com a perspectiva do Congresso norte-americano de não renovar o "fast track" que concedeu ao poder executivo para agilizar as negociações comerciais e que vence em junho. Com um congresso majoritariamente democrata e a pouco mais de um ano das eleições presidenciais nos EUA, não há projeções otimistas de grandes acordos comerciais.

 

 

Nessa área onde a competição se acirra cada vez mais, os acontecimentos parecem apontar para a primazia de um antigo ditado: é cada um por si e Deus por todos. 

 

Maria Clara R. M. do Prado, jornalista, é sócia diretora da Cin - Comunicação Inteligente e autora do livro "A Real História do Real". Escreve quinzenalmente, às quintas-feiras. E-mail: mclaraprado@ig.com.br