23/09/2006 - 15h54m - Atualizado em 25/09/2006 - 12h00m

LIVRO TRAÇA "AGENDA SOFISTICADA" PARA PROBLEMAS DO PAÍS

"O Brasil tem Jeito?" discute rumos para a economia brasileira com artigos de Miriam Leitão, Merval Pereira e Gustavo Franco

Fernando Scheller


Foto: Divulgação

O Brasil e a economia: diferentes pontos de vista

 

Um debate sofisticado e sem amarras ideológicas sobre economia e política. É assim que o jornalista e cientista político Arthur Ituassu define "O Brasil tem Jeito?" (Jorge Zahar Editor, R$ 34,50), livro organizado por ele e que traz artigos de personalidades conhecidas por debater (e tentar encontrar saídas) para os problemas nacionais: os jornalistas Merval Pereira e Miriam Leitão; os economistas Gustavo Franco e Luiz Gonzaga Belluzzo; e os cientistas políticos Wanderley Guilherme dos Santos e Fabiano Santos.

Com diferentes pontos de vista, a obra busca saídas para as contradições político-econômicas do País. Contradições que, segundo Ituassu, não estão nos gabinetes que decidem os rumos do País, mas dia-a-dia da população. A economia anda de mãos dadas não apenas com decisões políticas, mas também com acontecimentos sociais. É difícil entender, de acordo com o jornalista, a razão de o Brasil ter uma das maiores cargas tributárias do mundo, comparável a países famosos por seu "Estado social", e oferecer serviços tão deficientes.

"O Brasil tem Jeito?" abre espaço para visões diferentes sobre a interseção de sociedade e política, sem fazer apologia a esta ou aquela solução. Por isso, abre espaço para o "bicho de mercado" Gustavo Franco (ex-presidente do Banco Central e defensor da liberalização) e para Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp e defensor da criação de um sistema de proteção social (e, por isso mesmo, mais intervencionista).

"O mais importante é que o livro não apresente uma resposta, mas muitas. Mais importante que respostas é gerar debate. É mais importante que o livro sirva de emissor de uma linguagem política em que o cidadão e o eleitor se reconheça, reconheça suas demandas e exigências do ambiente da política", disse o organizador, em entrevista ao G1.

Leia abaixo os principais trechos da conversa:

G1: Como surgiu a idéia de reunir economistas, jornalistas e intelectuais para discutir uma pergunta tão popular quanto "O Brasil tem Jeito"?

Arthur Ituassu: A idéia foi ter gente de expressão nas suas áreas de atuação. Gustavo Franco já foi presidente do Banco Central, trabalhou no Plano Real e é um acadêmico de excelência, reconhecido em sua área. Míriam Leitão e Merval Pereira são nomes de peso do jornalismo brasileiro, pensam o Brasil diariamente em suas colunas e entrevistas, a primeira com um viés mais econômico e o segundo, mais político. Wanderley Guilherme dos Santos é um pensador, atua nos campos da política e da história; acompanha de perto também o cotidiano do país. Luiz Gonzaga Belluzzo é um nome forte também do debate nacional, e dialoga diretamente com o Gustavo Franco no terreno da economia política. Além disso, o Fabiano Santos é um cientista político clássico, capaz de analisar o funcionamento das instituições e dos partidos brasileiros. Todos se completam de alguma maneira. O mais importante é que o livro não apresente uma resposta, mas muitas. Mais importante que respostas é gerar um debate, uma agenda mais sofisticada para o país. É mais importante que o livro sirva de emissor de uma linguagem política em que o cidadão e o eleitor se reconheça, reconheça as suas demandas, as suas exigências do ambiente da política.

G1: O livro mistura artigos de economistas e de cientistas políticos. Como "O Brasil tem Jeito?" é uma pergunta também de fundo ético, é possível falar de economia sem falar também de política?

Arthur Ituassu: De forma alguma. Na verdade, fala-se muito de economia política no livro. É interessante perceber, e o livro quer atuar nesse campo, que há uma obsessão da agenda política brasileira com as questões da economia. Muitas vezes penso que isso é uma herança do período de instabilidade. Discute-se muito as exportações, a taxa de juros, mas fala-se pouco sobre o vazio de bens básicos que constituem qualquer comunidade política: educação básica de qualidade, acesso equalitário à Justiça, acesso à saúde de qualidade e segurança pública. Não que as questões econômicas não sejam importantes, mas o quanto não é esquizofrênica a situação em que a autoridade (nos seus três níveis) retira 40% da renda produzida pela sociedade brasileira ao ano e não a provê de nenhum bem público sequer. A impressão que temos é que se crescermos, se as taxas de juros estiverem baixas e estivermos exportando para o mundo todo, os problemas do país estarão selecionados. Isso é um equívoco completo. Os próprios problemas institucionais geram custos e impedem à chegada desta situação. Ao meu ver, mais importante que o tamanho do Estado brasileiro é como este mesmo Estado administra e aloca os seus recursos.

G1: Embora política e economia andem de mãos dadas, a economia e as finanças do País estão sendo tratadas de maneira mais técnica? Houve evolução neste sentido, ao longo dos últimos governos?

Arthur Ituassu: Ao meu ver, o país deu dois passos históricos significativos nas últimas décadas. Saiu de um longo período de regime militar sem grandes rupturas e montou um sistema democrático que tem seus problemas, mas funciona. O país também reorganizou a sua macroeconomia e os seus problemas eternos de desequilíbrio fiscal e internacional, mesmo que ainda haja alguns ajustes para se fazer. No entanto, o país não tratou das suas questões políticas e sociais com o mesmo empenho, e patina na desorganização social e institucional. A corrupção e a violência atuais são a maior prova disso. As nossas questões principais hoje passam pelo modo como a autoridade (nos seus três níveis) administra e aloca os seus recursos, e pelo modo como a autoridade é escolhida e fiscalizada pelo cidadão.

G1: O livro procura colocar visões opostas sobre temas como ''economia de mercado'' (globalização, papel de instituições como FMI e OMC) e a intervenção do Estado na economia?

Arthur Ituassu: Sobre o ambiente econômico internacional, eu diria que o livro basicamente procura pensar o Brasil, mas invariavelmente uma vez ou outra esbarra nesse terreno. Em especial no que diz respeito ao artigo do Belluzzo, que é praticamente um manifesto contra a forma como a economia brasileira se internacionalizou recentemente. Sobre a intervenção do Estado na economia, e mesmo na sociedade em geral, este é um tema-consenso. A natureza e a atuação da autoridade política no Brasil é um tema-consenso.