Investimento externo cresce e atrai mais firmas 

Sergio Lamucci e Raquel Landim

Valor 29.05.07

 

O processo de internacionalização das empresas brasileiras segue em ritmo forte neste ano. Uma etapa natural e positiva no desenvolvimento de companhias de grande porte, o movimento em direção ao exterior se acentuou recentemente, levando para fora do país também empresas menores, que reagem principalmente à valorização do câmbio e à percepção de que o dólar continuará barato por muito tempo. De fevereiro para cá, pelo menos 12 empresas - de setores como siderurgia, calçados, alimentos e autopeças - anunciaram projetos de investimento ou a ampliação de seus negócios fora do país. Números do Banco Central mostram que, de janeiro a março, as empresas brasileiras investiram US$ 5,2 bilhões no exterior, 57,5% a mais que os US$ 3,3 bilhões do mesmo período de 2006.

 

 

Para as companhias, a internacionalização traz uma série de benefícios, como a ampliação de mercados e o aumento de eficiência. Para a economia brasileira, porém, pode haver alguma perda, como a "exportação" de empregos, dizem alguns analistas.

 

 

O economista Sergio Vale, da MB Associados, diz que a recente aceleração da internacionalização das empresas brasileiras é conseqüência do câmbio apreciado e do elevado custo de produção, principalmente tributário e de infra-estrutura. "Em alguns casos, é a única salvação dessas empresas."

 

 

Companhia do setor calçadista, a West Coast estuda produzir sapatos para exportação fora do Brasil, cogitando a Ásia ou países da América Latina, como a Guatemala. O motivo? A perda de rentabilidade provocada pelo dólar barato. 

 

 

A Via Uno, também do setor calçadista, decidiu reestruturar a distribuição, apostando em abrir filiais no exterior dentro de grandes lojas de departamento, estratégia que começou a ser adotada na Alemanha. Em 2006, as exportações da empresa caíram 4%.

 

 

O economista Fernando Sarti, coordenador do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (Neit) da Unicamp, diz que há dois grupos distintos de empresas que buscam a internacionalização. Um é formado por empresas de menor porte, empurradas para fora pelo câmbio valorizado. Para Sarti, essas companhias respondem a desafios propostos pela economia. Mais do que uma opção, muitas vezes se trata, como diz Vale, de sobrevivência. Para a companhia, o processo tende a ser positivo.

 

 

Para o conjunto da economia, contudo, esse processo pode ter alguns efeitos negativos. A geração de valor agregado no país pode ser menor, mexendo com a densidade da estrutura produtiva. Com isso, a criação de empregos é afetada, avalia Sarti. A transferência da produção da West Coast para o exterior, por exemplo, pode colocar em risco 350 vagas diretas.

 

 

Sarti ressalva, no entanto, que esse processo é recente e precisa ser analisado com cuidado. Se parte da produção é transferida para o exterior, mas o desenvolvimento de produtos segue no país, a questão é diferente. "A produção não é a única fase importante na geração de valor por uma empresa." 

 

 

O outro grupo que busca o exterior é o formado por grandes companhias, diz Sarti. É o caso de empresas como Gerdau, Companhia Vale do Rio Doce, Perdigão e Embraer, cuja atuação no exterior é uma conseqüência natural do crescimento e da necessidade de ampliação de mercados e de ganhos de escala. "A internacionalização faz parte da estratégia de expansão dessas companhias e proporciona uma série de vantagens, como o acesso a novos fornecedores e a possibilidade de obter recursos a um custo mais baixo."

 

 

Um exemplo é a compra da mexicana Siderúrgica Tultitlán pela Gerdau, por US$ 259 milhões, fechada em março. Com essa operação, a empresa brasileira - que atua nos EUA, Argentina, Colômbia e Peru - entrou no México. Outro caso é a aquisição da usina de aço colombiana da Acerías Paz del Ríopela Votorantim em março por US$ 491 milhões.

 

 

O assessor da área de planejamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Francisco Eduardo Pires de Souza, vê a internacionalização com mais vantagens do que desvantagens. Ele lembra que empresas que atuam em vários mercados diversificam riscos. "A internacionalização pode funcionar como um hedge (proteção) geográfico". 

 

 

Um dos destinos preferenciais do investimento brasileiro no exterior é a América Latina. A Metalfrio Solutions, fabricante de freezers e refrigeradores, comprou neste ano a mexicana Refrigeración Neto por US$ 13,5 milhões. Já a gaúcha Artecola, do setor de adesivos industriais, realizou aquisições no Chile, Peru e Argentina, que devem garantir US$ 19 milhões para a receita líquida da empresa em 2007. A atuação das empresas brasileiras, porém, também inclui países desenvolvidos. A Tigre, fabricante de tubos, conexões e acessórios de PVC, deve inaugurar no mês que vem sua primeira fábrica nos EUA, onde serão investidos US$ 5 milhões. 

 

 

Souza se diz surpreso com a escala e a rapidez do processo. Em 2006, o fluxo de investimento líquido de empresas brasileiras no exterior totalizou US$ 28,2 bilhões, resultado de aplicações lá fora de US$ 29,3 bilhões e repatriações de US$ 1,1 bilhão. O número foi recorde, ainda que influenciado pela compra da canadense Inco pela Vale do Rio Doce, por US$ 17,2 bilhões. De janeiro a março deste ano, o fluxo líquido de investimento brasileiro no exterior ficou negativo em US$ 1,9 bilhão: as companhias trouxeram do exterior para cá US$ 7,1 bilhões, mais do que US$ 5,2 bilhões enviados para fora.

 

 

Os analistas ressaltam que o câmbio promove mudanças importantes na economia. Vale lembra que a situação era diferente em 2004, quando o dólar em um nível mais favorável levou multinacionais a apostar no Brasil como plataforma de exportação. Essa perspectiva deixou de existir, segundo ele. O investimento estrangeiro direto continua a entrar em volumes razoáveis - o saldo líquido de 2006, de US$ 18,8 bilhões, foi até um pouco superior aos US$ 18,1 bilhões de 2004. O ponto é que, hoje, as multinacionais investem no Brasil para aproveitar o mercado interno, e não para exportar. "Houve uma mudança de foco." 

 

 

As empresas brasileiras também continuam a investir por aqui, especialmente nas atividades voltadas para o mercado doméstico. Esse é um dos fatores que fazem analistas como Sarti e Souza a não identificar nesse processo um sinal de desindustrialização. Estimativas da MB apontam para aumento de 8,7% do investimento, em relação a igual período de 2006.

 

 

Se economistas como Sarti e Vale vêem o risco de algum problema no processo de internacionalização, Octavio de Barros, diretor de pesquisa macroeconômica do Bradesco, só enxerga vantagens. Para ele, o investimento privado brasileiro no exterior reflete uma "maturidade" das empresas e uma "especialização" em seus melhores ativos. "Eu me recuso a aceitar a tese de que a internacionalização está associada a um desinteresse pelo Brasil. Precisamos sepultar essa visão ingênua." Na sua avaliação, o aumento do investimento brasileiro no exterior reflete o bom momento da economia do país e é o melhor termômetro de que a economia está se modernizando. "Se algum tipo de atividade vai ser descontinuada no país, não vejo como problema." Barros discorda da tese de que a internacionalização gera perda de empregos. 

 

 

Para ele, as empresas transnacionais se tornam economicamente mais fortes, também no país de origem, dinamizando a economia local. "Atribuir o fluxo de investimento brasileiro no exterior a dificuldades domésticas de infra-estrutura ou de câmbio seria desqualificar a capacidade das empresas brasileiras de agir estrategicamente e de pensar no longo prazo."