Valor 08.02.07.

 

 

A real pressão sobre o Real

Ilan Goldfajn

 

É mais do que coincidência o que ocorre neste início de ano. No Brasil, renovaram-se as pressões para apreciação do Real, enquanto que na Argentina e Venezuela, países que controlam mais fortemente o câmbio, voltaram à cena os sérios problemas inflacionários. Todos se beneficiam de um cenário internacional de extrema liquidez que permite abusos nas políticas internas, como aumento exagerado dos gastos públicos e outros excessos de demanda (juro real muito baixo na Argentina).  O resultado desses excessos é uma pressão na economia para apreciação do câmbio ou inflação, em suma, para apreciação real da moeda. E, como conseqüência, uma compressão dos gastos privados – consumo e exportação líquida – para acomodar esses excessos públicos.

 

Na Venezuela, os gastos do governo cresceram espetaculares 50% entre janeiro e novembro do ano passado. A inflação foi de 17% e continua crescendo (em janeiro, subiu para 18,4%). Para controlar a inflação, o governo recorre a métodos antigos e ineficazes: controle de preços e fiscalização crescente nos supermercados. A conseqüência tem sido o desabastecimento de itens básicos como carne, leite e frango. Estranhos tempos estes em que estamos vivendo.

 

Na Argentina, o governo está na mesma toada. Exerce controles sobre os preços, mas é mais detalhista. Concentra-se somente nos preços que fazem parte da coleta de preços e, agora, quer focar apenas nos estabelecimentos que são pesquisados na amostra. A inflação divulgada de janeiro pelo IDEC (“IBGE argentino”) foi de 1,1%, quando, na realidade, a verdadeira inflação de 2,1% foi vazada pelos funcionários da instituição. Uma funcionária graduada do instituto foi demitida. A situação envolve não só a população Argentina, que sofre da inflação verdadeira e percebe a tramóia do governo, mas também os investidores que detêm a dívida Argentina, cujos 40% são indexados à inflação (divulgada, mas menor que a verdadeira).

 

No Brasil, a pressão não é sobre a inflação, mas sim sobre o câmbio nominal. Desde agosto do ano passado o câmbio se manteve estável, próximo à faixa de R/U$2,15. Recentemente, há pressões para que o Real aprecie abaixo de 2,10, em direção a 2,0. O BC tem comprado mais reservas  nos últimos dias.

 

Muitos acreditam que o Brasil poderia seguir o caminho de alguns países emergentes da Ásia, que crescem a taxas elevadas com moedas depreciadas. A idéia é que um país com preços mais competitivos dos seus produtos teria como exportar mais, crescer mais e gerar mais emprego. Portanto, nesta linha de raciocínio, o Brasil deveria se esforçar para manter um Real mais fraco para alavancar o crescimento. Mas, há dois potenciais obstáculos a esta prescrição de política econômica. Em primeiro lugar, a teoria econômica nos ensina que câmbio (real) mais depreciado significa salários reais mais baixos (de fato, é difícil encontrar países com salários altos e moedas muito fracas). Em segundo lugar, governos que tentam depreciar suas moedas, sem querer aceitar salários mais baixos, acabam gerando apenas mais inflação, o que acaba frustrando o desejo de se tornarem mais competitivos.

 

A política econômica asiática não é apenas câmbio depreciado, também se baseia em altas taxas de poupança. Regimes que conseguem manter uma depreciação real por um período mais prolongado refletem uma taxa muito elevada de poupança (China poupa 46% do PIB). Depreciações reais, sem que existam as condições fundamentais, são transitórias. Veja o caso da Argentina, que alguns acreditam estar promovendo o crescimento através de um câmbio mantido depreciado. Na realidade, o câmbio real (levando em consideração a inflação que corrói a competitividade) está apreciando, apesar da estabilidade do câmbio nominal (veja gráfico). No curto prazo, os países conseguem uma relação positiva entre câmbio nominal e real, mas no longo prazo a inflação acumulada gera uma grande discrepância.

 

Qual é a recomendação de política econômica nesses casos? Uma queda dos gastos significaria uma poupança pública maior e tenderia a depreciar a taxa de câmbio real e reduzir os juros. É a forma como a economia se equilibra: menores gastos do governo abrem espaço para expandir as exportações líquidas, via depreciação, e aumentar o investimento, via queda dos juros.

 

Em suma, independente da discussão sobre a conveniência da maior intervenção cambial no Brasil no momento, é importante ter em mente que nenhum governo controla o câmbio real no longo prazo. Evitar a apreciação do câmbio neste horizonte mais longo requer condições macroeconômicas determinadas. Uma redução dos gastos públicos abriria espaço para mais exportações e/ou investimentos. Mas isto, infelizmente, não faz parte da agenda econômica.

 

Ilan Goldfajn, sócio-diretor da Ciano Investimentos, igoldfajn@cianoinvest.com.br, professor da PUC e diretor do Instituto de Estudos e Pesquisas Econômicas da Casa das Garças.”