Ilan Goldfajn O Globo, 16.03.07

A economia mundial e as frágeis projeções

 

 

“It is not the speed that kills, it is the sudden stop”

 

Não é a velocidade que mata, mas a parada súbita. Foi com essa frase que o professor do MIT, Rudiger Dornbusch, introduziu o conceito de “sudden stops” na literatura econômica (em um artigo de 1995, para o instituto Brookings, que tive o prazer de co-autorar). Lembrava apenas que os custos de exageros em economia são pagos não nos momentos de bonança, da aceleração, mas sim quando (e se) houver uma forte reversão desses momentos. Hoje em dia, há vários fatores que justificam o longo período de bonança na economia mundial. Mas será que já estamos na fase do exagero? Quais são os riscos atuais e as projeções para o futuro próximo?

 

Alan Greenspan (ex-governador do Fed, banco central americano) disse que vê 30% de chances de uma recessão americana, e Larry Summers (ex-secretário do Tesouro do governo Clinton) colocou as chances em 50%. Essas projeções devem ser levadas a sério?

 

As projeções em economia são reconhecidamente frágeis. A ciência econômica não permite facilmente realizar testes em ambientes controláveis, como nas ciências exatas. Na macroeconomia, é praticamente impossível manter o ambiente em volta controlado. Há sempre fenômenos acontecendo ao mesmo tempo. Uma dificuldade ainda maior é tentar obter padrões para a economia mundial vista como um todo (comparamos com Marte?). A saída é olhar o ocorrido no passado, ao longo do tempo, com o risco de perder de vista as mudanças e desenvolvimentos que podem tornar o futuro muito diferente do passado. É o caso da conjuntura atual. Este período de crescimento robusto irá perdurar?  Haverá desaceleração suave na economia mundial?

 

Recentemente, foram publicados dois relatórios do FMI sobre a economia mundial e a sua situação financeira. O World Economic Outlook analisa o quadro macroeconômico, e o Global Financial Stability Report avalia os riscos financeiros globais. Quais são as projeções e riscos para a economia mundial?

 

  1. Espera-se um crescimento mundial ainda robusto em 2007 e 2008 (4,9%), um pouco menor que o do ano passado (5,4%). Nos EUA, prevê-se uma desaceleração de um crescimento acima de 3%, no ano passado, para em torno de 2%, nos últimos trimestres. Para os próximos trimestres, espera-se um crescimento menor ainda, entre 1,5% e 2%. A desaceleração nos EUA é resultado da fraqueza do mercado imobiliário americano e do setor de manufaturados. O maior risco nos EUA é a desaceleração nesses setores específicos afetar o resto da economia, como o setor de serviços e, pelo lado da demanda, afetar o consumo. A questão principal, a meu ver, é projetar se o crescimento da produtividade americana, base do crescimento sustentado, irá retomar os padrões anteriores, ou permanecerá nos valores menores, observados recentemente.
  2. O FMI acredita que o resto do mundo não irá ser afetado pela desaceleração americana (“decoupling”), dado que essa está concentrada em alguns setores específicos. O risco aqui é o mesmo dos EUA: a desaceleração americana espalhar-se para o consumo e afetar as exportações do resto do mundo.
  3. Há um pouco menos de preocupação com os desequilíbrios de balança de pagamentos (déficit grande nos EUA, e superávit no resto do mundo), mas aumentaram os riscos financeiros: os problemas de crédito no mercado de hipotecas nos EUA podem se espalhar para outros setores, e as atividades de fusões e aquisições alavancadas têm sido feitas com menos rigor do que anteriormente.

 

Os fenômenos econômicos sempre demoram muito além do previsto para acontecer, mas quando ocorrem, surpreendem pela rapidez que se desenrolam (outra frase do Dornbusch). Hoje em dia, a economia mundial tem surpreendido pelo longo período de prosperidade, em função, provavelmente, do choque de produtividade (informática, internet), e do surgimento da China como novo fenômeno econômico. Mas não deveriam ser motivos suficientes para que seja abolido das projeções o ciclo econômico como fenômeno mundial: recessões são ainda possíveis. E é bom lembrar que, nesse caso, os custos de eventuais exageros não são pagos nos períodos de expansão, mas nos momentos de reversão.   

 

 

Ilan Goldfajn, sócio da Ciano Investimentos, professor da PUC e diretor do IEPE/Casa das Garças, igoldfajn@cianoinvest.com.br.