VALOR, 22.11.04

Brasil: um olhar sobre a história
Fabio Giambiagi

 

Chega esta semana às livrarias o livro "Economia Brasileira Contemporânea", que tive o prazer de organizar junto com André Villela, Jennifer Hermann e Lavínia Barros de Castro (Editora Campus). Sinto-me à vontade para tratar do assunto, porque os méritos cabem integralmente aos autores e não aos organizadores. O propósito do livro foi o de fazer uma retrospectiva da economia brasileira no pós-guerra, desde 1945 até 2004, reunindo diversos economistas para discorrer sobre alguns temas. Coordenar o esforço de pessoas com grande capacidade analítica é sempre um prazer intelectual, e o fato de termos conseguido reunir no mesmo projeto a reflexão de personalidades tão diferentes sugere que economistas podem encontrar espaços de convergência maiores do que sugere a vã filosofia.

Tratar 60 anos de história nos leva naturalmente a ver as questões com outros olhos, e é inevitável lembrar da analogia de quem contempla a floresta ao invés de olhar apenas a árvore. A paixão do cotidiano às vezes ofusca os fatos e nos impede de ter a frieza com a qual analisar os acontecimentos como parte de um processo histórico, onde o que importa são as grandes tendências, mais do que as minúcias do dia-a-dia.

Nesse sentido, talvez estejamos assistindo a um desses processos de longo prazo, que poderá criar perspectivas promissoras para o país nos próximos anos. Analisando as diferentes fases da evolução da economia nos últimos 60 anos, nota-se que, mesmo as que foram marcadas por grande expansão, tiveram seu "calcanhar de Aquiles": o governo JK se encerrou com uma combinação de problemas de inflação elevada, crise fiscal e escassez de divisas; a crise do petróleo acabou com o "milagre" de 1968/1973; o II PND deixou uma pesada herança de endividamento externo; e a euforia do pós-Real definhou com as crises de 1997-1998.

A leitura do conjunto de artigos que compõe o referido livro não deixa dúvida de que o Brasil teve, na segunda metade do século XX, três grandes "vilões" que se alternaram gerando crises recorrentes, "dribladas" algumas vezes, "empurradas com a barriga" outras, e que se conjugaram em uníssono na "década perdida" dos 80: i) a alta inflação; ii) a desordem fiscal; e iii) os desequilíbrios do balanço de pagamentos. O primeiro problema foi atacado com a estabilização do Plano Real; o segundo, com o ajuste fiscal de 1999; e o terceiro, com a mudança operada no mesmo ano e a "virada" da situação externa, ensaiada no final do governo anterior e aprofundada no governo Lula. Em outras palavras, o país, com esforço e lentamente, está construindo um arcabouço que poderá lhe permitir usufruir de anos prósperos até o final da década em curso e na seguinte, se esse movimento tiver continuidade e se houver um novo ciclo de reformas que viabilize o aumento necessário dos investimentos.

Uma das lições que se aprende lendo a história como um conjunto de atos é que dificilmente os avanços de um país, bem como seus problemas, são resultado de um governo apenas. Da mesma forma que Juscelino se beneficiou do forte processo de intervenção do Estado em setores-chave da economia, intensificado no governo Vargas, ou que o "milagre" de 1968/73 foi em parte resultado das excelentes reformas adotadas nos anos 1964/1967, não se pode entender o governo FHC sem fazer referências às propostas de mudanças da administração Collor, nem deixar de notar traços de continuidade entre a política econômica atual e a de Pedro Malan/Armínio Fraga. De certa forma, o palco da história é uma grande peça, onde a cada ator - ou seja, a cada governo - cabe um papel em geral menor do que ele supõe, e onde a chave para a compreensão da evolução do país está em entender as decisões dos governos como resultado de longo processo de transformações sucessivas.

Os anos 90, cinzas quanto aos seus resultados e que nos deixaram - novamente! - uma pesada herança de endividamento externo e fiscal, foram ricos em transformações. Hoje, é possível que a economia esteja no limiar de um novo ciclo de expansão, com uma combinação - inédita na história das últimas décadas - de inflação relativamente baixa, contas fiscais razoavelmente ordenadas e situação externa equilibrada.

É neste último ponto, em particular, que reside uma das principais razões para poder se olhar o futuro com um certo - ainda que cauteloso - otimismo. De fato, o Brasil está deixando para trás os problemas externos que tantos problemas nos causaram depois do Plano Real - e antes também. A relação dívida externa líquida/exportações, indicador por excelência da capacidade de pagamentos de um país, e que Simonsen costumava recomendar que não fosse muito além do coeficiente de 2, está em queda desde 1999, e em queda livre nos últimos dois anos. Ela deverá cair em 2004 para 1,7 e, dependendo dos números finais das exportações até dezembro, poderá ser simplesmente o menor nível dos últimos 30 anos, e o terceiro menor nível em quase 50 anos, desde o início do governo JK. A relação dívida externa líquida/exportações chegou a ser de mais de 3 no processo de endividamento dos anos 70; e de mais de 4 na crise dos anos 80; caiu para 2,5 no início do Plano Real; e chegou a quase 4 em 1999, quando tivemos nova crise.

Curiosamente, embora tenham se enfrentado algumas vezes no debate recente, os excelentes textos que constam no livro, de Gustavo Franco, contra as falsas ilusões trazidas pela inflação; e de Delfim Netto, contra os perigos do endividamento externo, se complementam entre si e indicam claramente as lições que o país aprendeu ao longo das décadas. Com um pouco de sorte e se fizermos novas reformas, talvez um novo Brasil esteja nascendo.