São Paulo, quinta-feira, 12 de abril de 2007

Texto Anterior | Próximo Texto | Índice

ANTONIO CARLOS LEMGRUBER

A nova política monetária

Não é verdade que o BC conduza a taxa de juros pensando só na inflação, e o mesmo pode ser dito do Fed

OS ÚLTIMOS TRABALHOS acadêmicos sobre inflação e política monetária estão começando a demonstrar um descompasso total. A política monetária dos bancos centrais -vide Brasil e até mesmo Estados Unidos- se baseia cada vez no regime de metas de inflação. Ou seja: o banco central deve atuar com a taxa de juros e os agregados monetários tendo em vista basicamente uma meta inflacionária. Curiosamente, porém, as novas discussões sobre a inflação num mundo globalizado têm enfatizado cada vez mais aspectos não-monetários, tais como a influência de importações de países como China e Índia bem como a própria taxa de câmbio.
Digamos que a inflação no Brasil esteja muito abaixo das metas por causa da ajuda do câmbio apreciado. E que, nos EUA, a inflação está acima das metas por causa de taxas de juros reais ainda situadas em níveis baixos em conjunto com forte expansão monetária e creditícia.
Normalmente, se os bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos acreditassem realmente nos seus modelos monetários, estariam atuando da seguinte maneira: juros mais baixos no Brasil e juros mais altos nos EUA.
Acontece que, na verdade, as autoridades monetárias brasileiras estão "gostando" da taxa de câmbio apreciada, e as autoridades norte-americanas, das importações baratas e estão preocupadíssimas com uma possível recessão.
Não é verdade, portanto, que o Banco Central do Brasil conduza a taxa de juros pensando apenas na inflação, e o mesmo pode ser dito para o Federal Reserve. O Banco Central do Brasil não baixa mais rapidamente os juros porque sabe que o câmbio vai desvalorizar e -mesmo que isso seja muito bom para o crescimento econômico- é ruim para a inflação, como ficou demonstrado em 1999 e 2002.
Já o Federal Reserve não sobe mais rapidamente os juros porque sabe que pode haver uma profunda recessão alimentada pela crise no setor imobiliário.
Os dilemas de política econômica, portanto, continuam a existir. De fato, na prática, bancos centrais se preocupam com a inflação e também com o crescimento econômico e com o balanço de pagamentos.
A suprema ironia, em nossa opinião, é que o governo do PT percebeu que inflação baixa dá mais voto do que desemprego baixo. E, nos Estados Unidos, o governo republicano raciocina de maneira oposta: a economia em recessão é que tira votos.
Curiosamente, os petistas parecem menos preocupados do que os republicanos nos Estados Unidos com o crescimento econômico. E mais satisfeitos com a inflação muito baixa. Afinal, só os desempregados são afetados pelo desemprego, enquanto a inflação afeta a todos: é 100% contra 10%. Quem ganha eleição no Brasil é a inflação baixa, enquanto, nos EUA, é o desemprego baixo -o que se explica pelas histórias passadas dos dois países nas últimas décadas desde 1950.
O fato é que a inflação não acabou -nem no Brasil nem nos Estados Unidos nem na China. Nem tampouco os ciclos econômicos. O que aconteceu entre 2003 e 2007 no mundo e no Brasil não é uma tendência permanente. Pelo contrário, lá pelos idos da década de 60, dizia-se também que os ciclos econômicos tinham acabado graças à aplicação das idéias keynesianas.
Recentemente, andaram dizendo que foi a tal da "supply-side economics" do período Reagan que preparou o terreno para a incrível expansão econômica dos últimos 20 anos (no mundo, não no Brasil). Nosso comentário é mais simplista: é a teoria macroeconômica que foi-se sofisticando em direções opostas. De um lado, a maior importância das expectativas racionais. De outro, a maior importância do setor externo e da globalização.
Mas a inflação vem por aí de novo no Brasil e no mundo, mesmo que seja em níveis mais civilizados. Pena que o espetáculo do crescimento esteja terminando na maioria dos países -com exceções como China e Índia- e que o Brasil tenha perdido esse bonde da história nos últimos 20 anos. O Plano Real foi tão bem feito que os seus autores pensaram realmente que as questões fiscais e monetárias eram irrelevantes. Era só uma questão inercial. Somos agora um país sem inflação e sem crescimento econômico. Uma ironia quando se olha para o período 1950-1980.


ANTONIO CARLOS LEMGRUBER, 59, é economista, PhD pela Universidade de Virginia (EUA), e foi presidente do Banco Central do Brasil em 1985.

Hoje, excepcionalmente, não é publicada a coluna de PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.


Texto Anterior: Venezuela terá PIB menor e mais inflação, diz FMI
Próximo Texto: Vinicius Torres Freire: A Bolsa e a trincheira pessimista
Índice


Copyright Empresa Folha da Manhã S/A. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Agência Folha.