O Globo, 05 de fevereiro de 2006  Versão impressa

 

 

‘Tudo mudou e está no mesmo lugar’

Gustavo Franco parou de fumar no dia que foi editada a medida provisória do Plano Real. Mas ganhou peso ao sair do governo. O ex-presidente do BC, que deixou o cargo em janeiro de 1999, na maxidesvalorização cambial, era o mascote da turma de economistas que criou o real. “O problema do que vem depois é sério. É difícil achar um ex-presidente de BC que sequer chegou aos 50 anos”, conta Franco, hoje diretor da Rio Bravo Investimentos.

Ao entrar no governo, chamou sua atenção a úlcera recorrente de Murilo Portugal, então secretário do Tesouro. O senhor conseguiu sair do governo sem ganhar uma úlcera?

GUSTAVO FRANCO: Sim, porém com mais problemas para dormir, acima do peso. O governo é um emprego muito bom fora dos momentos de crise. Mas eu saí num momento especialmente de crise, então fica um pouquinho o gosto do final, que foi muito complicado. Não fez bem à saúde.

O senhor saiu na mudança do regime cambial. Hoje o dólar está em torno de R$ 2,20. Como vê a nossa moeda?

FRANCO: A título de curiosidade, se você descontar a inflação, em praticamente todos os índices, o dólar de hoje está abaixo do que estava quando eu saí. Ou seja, o que às vezes é insuportável numa circunstância, na outra é totalmente aceitável. É curioso, são os ciclos da economia. Tudo mudou e tudo está no mesmo lugar.

Em outros aspectos da política econômica, tudo está no mesmo lugar também?

FRANCO: Não, isso eu acho que não. O período que eu vivi no governo foi um período de transformação superintenso. Eu não creio que o período que se seguiu tenha sido tão rico em matéria de mudança.

O livro mostra os duelos do Banco Central em suas intervenções no mercado. Como vê a atuação do BC hoje?

FRANCO: Na minha época, tinha uma coisa muito contagiante, que era o governo todo envolvido no mesmo projeto. E isso é raro. O normal talvez seja isso que a gente tem hoje, um governo dividido, com propósitos relativamente obscuros, não muito claros. Um lado rema para uma direção, o outro lado rema para uma direção contrária, e você não tem muita clareza quanto à missão.

Havia blindagem política para aquela equipe econômica?

FRANCO: Isso foi essencial. Era o produto de uma circunstância. Quando o chamado bunker se forma, o Congresso estava paralisado pela CPI do Orçamento, o presidente havia sido destituído, era o vice quem governava, havia um vazio que foi ocupado por nós. Tínhamos um plano, num momento em que tudo o que o país não tinha era um plano. E quando isso acontece, você se torna automaticamente blindado. Talvez a palavra correta não seja blindagem, seja indulgência. O mundo político nos deixou trabalhar.

No fim do livro, numa conversa com Malan, o senhor afirma que de certa forma vocês haviam ganho a eleição, porque não houve rupturas na economia. Agora, três anos depois, continua achando isso?

FRANCO: Não tenho a menor dúvida. (Luciana Rodrigues)