O Globo, 05 de fevereiro de 2006  Versão impressa

 

 

Bill Clinton e Tony Blair seguraram Malan

 

Luciana Rodrigues

 

Uma mudança de moeda, seis crises cambiais, um racionamento de energia elétrica e dois pacotes recordes com o FMI. Em meio às profundas reformas e às turbulências freqüentes que marcaram a economia brasileira na era Fernando Henrique Cardoso, um grupo restrito de técnicos se manteve no poder, praticamente fora do alcance de ingerências políticas.

 

Essa blindagem da equipe econômica contou com o apoio de ninguém menos do que Bill Clinton, Tony Blair e Stanley Fischer. Três dos homens mais poderosos do mundo — o então presidente americano, o primeiro-ministro britânico e o número 1 do FMI na época — singelamente aconselharam Fernando Henrique a manter o ministro Pedro Malan como titular da Fazenda no auge da crise cambial de 1999, que culminou com a maxidesvalorização do real.

 

Essa e outras revelações estão no livro “3.000 dias no bunker”, do jornalista Guilherme Fiúza, que será lançado pela Editora Record na terça-feira. Escrito a partir de cem horas de entrevistas com Fernando Henrique, Malan e outros pesos pesados da equipe econômica — como o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco e o ex-secretário geral do Ministério da Fazenda e ex-ministro-chefe da Casa Civil Pedro Parente — o livro detalha a rotina dessa verdadeira casamata no poder.

 

— Sempre tive curiosidade em entender quais as circunstâncias que permitiram que tão pouca gente tivesse tanto poder nas mãos, como dificilmente foi visto na República em períodos democráticos — conta Fiúza.

 

Na sua avaliação , um acordo tácito entre o então ministro da Fazenda Fernando Henrique e o grupo que ele levou da academia para auxiliá-lo no ministério, ainda nos primórdios do Plano Real, permitiu que a equipe econômica trabalhasse à margem de pressões políticas. Um acordo que, para os integrantes do bunker — apelido criado pelos próprios economistas que ajudaram a conceber o real — era condição sine qua non para ficarem no governo.

 

Malan dá lições a Palocci, em parceria duradoura

 

Da criação do real à transição para o governo Lula, o livro mostra como foi instaurada a prática do isolamento político da equipe econômica. “Palocci colheu lições sobre a blindagem dos cargos técnicos contra os afilhados políticos”, diz o livro, sobre os contatos entre o atual ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e seu antecessor Malan, para em seguida completar: “Nascia ali uma inusitada, discreta e duradoura parceria entre o médico comunista e o monstro neoliberal”.

 

Não por acaso, Malan foi o ministro da Fazenda que mais tempo permaneceu no cargo.

 

Nas entrelinhas ou explicitamente, o livro traça o estilo pessoal de cada um dos entrevistados. A predileção de Fernando Henrique pelas fofocas sobre a vida pessoal de aliados e rivais, a extrema discrição de Malan e a agressividade de Gustavo Franco nos duelos com o mercado financeiro.

 

E conta episódios prosaicos da vida de cada um deles. Como a discussão em que Murilo Portugal — então secretário do Tesouro e hoje secretário-executivo da Fazenda — e o político alagoano Aurélio Nonô trocaram empurrões e quase saíram no tapa, sendo apartados por Gustavo Franco. Nas palavras do livro, eram “três homens jovens de menos de 1,70m de altura atracados no meio da rua”.

 

O livro relata curiosidades tanto da vida pessoal de seus personagens — como o fato de a filha mais nova de Gustavo Franco ter sido concebida na embaixada brasileira em Londres, no mesmo quarto azul que Lúcia Flecha de Lima emprestava para os encontros amorosos da princesa Diana — como da história do país. O real, por exemplo, por pouco não se chamou cristal.

 

O livro chegou nas livrarias sexta-feira e terá seu lançamento oficial depois de amanhã, às 20h, na Livraria Argumento (Rua Dias Ferreira 417, Leblon). Seu preço é R$ 48,90.