Do Blog de Guilherme Fiúza, Política et cia. 23/01/07 12:01 AM

 

A Zélia está de volta

Finalmente Lula oferece alguma coisa para entreter os jornalistas.

Até agora, como todos devem lembrar, a única coisa original daquelas que matam a sede da imprensa por infográficos e explicações ornamentais tinha sido o esquema dos cartões eletrônicos do Fome Zero. Esquema, não. Mais prudente dizer sistema, nunca se sabe. Obviamente o tal sistema Visa para desjejum nunca funcionou, mas rendeu bonitas edições de jornais e revistas.

Mas pacote é a maior diversão, e o país se acomoda na poltrona com um saco de pipoca para assistir Dilma Roussef, a reencarnação de Zélia Cardoso de Mello, com aquele jeito de “vou dizer o que vai acontecer com vocês”. O que ela e Guido Mantega expuseram – e que Lula sabiamente não tentou explicar – vai render um prodigioso tricô literário nas páginas e telas.

É bom que o entretenimento esteja garantido, porque como plano de governo o tal Plano de Aceleração do Crescimento não é tão divertido.

Mas seria injusto dizer que o PAC é irrelevante. Há alguns passos atrás de grande relevância. Zélia Roussef e sua turma, traumatizados pela eterna acusação de copiarem as grandes linhas do governo anterior, decidiram mostrar que podem ser criativos, que também sabem inventar. E não poderia haver invenção mais criativa do que a tentativa de ressurreição da correção monetária.

A estabilidade econômica da qual Lula se ufana nasceu com a morte da correção monetária. É claro que, a essa altura, ninguém neste governo está nem aí para isso. Já viram que podem chacoalhar a árvore à vontade que a fruta da popularidade presidencial não cai. Só cai dólar. Portanto, a hora é de inventar.

A idéia de inventar uma indexação especial para o salário mínimo é genial. Os ministros de Lula transbordaram orgulho: finalmente uma fórmula com grife. Agora ninguém mais poderá acusá-los de mimetismo. O percentual de reajuste é igual ao IPCA do ano anterior mais a variação do PIB do penúltimo ano. Eureka! A verdadeira Zélia (a do Collor e das tablitas) deve estar se roendo de inveja.

O funcionalismo público também terá seus salários automaticamente indexados a partir do PAC. E está lá, novamente, a marca da inventividade. Os servidores da nação receberão a inflação mais 1,5%. E por que não 1,6%, ou 1,4%? Ora, não perturbem. Neste 1,5% está provavelmente uma das chaves do tal crescimento acelerado. Calem essas cassandras.

E prestem atenção: a tabela de correção do imposto de renda será corrigida anualmente em 4,5%. Perceberam a mudança? O mínimo, o funcionalismo, o IR – tudo agora vai passar a se comportar conforme a bula de Zélia Roussef e sua turma. Os especuladores, os apostadores do mercado e todas as viúvas da correção monetária estão salivando. Finalmente uma penca de índices capazes de justificar os velhos e lucrativos lances na roleta dos preços.

E não há culpa. Quem não entendeu por onde a inflação foi embora, não vê por onde ela poderá voltar. E o que os olhos não vêem, o coração não sente.

O PAC prevê 500 bilhões de reais em investimentos. Agora vai. Infelizmente, não há um centavo de dinheiro novo cuja garantia esteja além da vontade de Zélia Roussef e companhia. Além dos números recauchutados do orçamento, o restante está lastreado nas preces do Estado Maior de Lula. Tudo bem, torcer não custa nada.

E há também um fundo de investimento em infra-estrutura, entre as diversas medidas que já começam a dar a impressão de que o Brasil corre o risco de se empanturrar de dinheiro. O que levará os donos dos reais e dos dólares a derramar suas economias nesse fundo? Que ativos, que projeções, que regras conquistarão a confiança e o apetite desses investidores? Por enquanto, os belos olhos de Roussef e o charme encabulado de Mantega – o que não é pouco.

Ah, sim, e há também a redução de impostos. Reforma tributária, finalmente? Não. São alguns setores – os de sempre, aqueles mesmos da época do Delfim – escolhidos para ganhar isenção de tributos e “fazer o país crescer”. É engraçado como “o país”, nessas horas, parece caber em meia dúzia de quarteirões da Avenida Paulista.

A criatividade do governo também produziu uma pérola. O superávit primário de 4,25% do PIB será reduzido para jogar a sobra na “economia real”, como gostam de dizer os abnegados desenvolvimentistas da escola de Mantega (olhem lá, esse país ainda vai ter uma indigestão com essa dinheirama). O curioso é que, segundo o PAC, esse dinheiro só será gasto se sobrar – isto é, se o país crescer mais. Se crescer menos, não gasta. Uma medida de aceleração do crescimento que depende do próprio crescimento. Genial. Está criado o superávit condicional.

O plano traz ainda uma “meta” de crescimento de 5% ao ano, outra de redução da taxa de juros a índices específicos ano a ano. É notável como “meta” passou definitivamente a ser outra palavra para “desejo”. E desejar, como se sabe, é de graça.

A inventividade do PAC traz ainda novos conceitos, como o de “infra-estrutura social”, depois do qual o Brasil jamais será o mesmo. Lula não fez por menos: “Vamos implantar uma nova cultura de produção e trabalho”. Emocionante. Não se sabe ainda se isso será feito por decreto ou medida provisória.

E atenção: com o lançamento do PAC, o presidente anuncia a inauguração de “um novo humanismo”. Enfim um governo que pensa grande.

Espera-se para as próximas horas a divulgação, pela ministra Zélia Roussef, da fórmula da felicidade.

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Publicado por Guilherme Fiuza - 23/01/07 12:01 AM