Revista Época




Edição 440 – 24/10/2006

 

Os dois filhos de Fernando

Gustavo H. B. Franco

Quando o leitor estiver visitando essas mal traçadas notas, estaremos distantes apenas oito dias ou menos do segundo turno, e talvez já tenhamos clareza que o Partido da Racionalidade Macroeconômica vai ganhar a sua quarta eleição seguida.  Não obstante a beligerância das campanhas, o mercado financeiro, em seu infinito pragmatismo, não deu pelota para a eleição, até agora, na certeza de que, no quesito política econômica, as diferenças entre os contendores pertencem ao terreno da pontuação.

A convergência macro soterra mais uma vez a ilusão de que, na economia, “um outro mundo é possível”. É como o “debate” sobre a vida em outros planetas: as pessoas querem acreditar, divertem-se com a idéia, o público adora, mas não existe nenhuma indicação cientificamente sólida nesta direção.

Do lado ruim, todavia, há o fato de que o eleitor pode não ter os elementos para distinguir o whisky escocês do paraguaio. Lula diz que venceu a inflação (em que planeta?). Vejam que não é bem a conversa da “herança maldita”, que serviu para a eleição anterior, mas uma inovação: o presidente sabe que herança é boa, mas se os verdadeiros herdeiros não estão usando, como não se apropriar do legado de FHC?

Tudo começou com Palocci, que, diferentemente de Lula, referia-se a seus antecessores com a postura de quem continuava do ponto onde os outros pararam, e assumindo que o Brasil não tinha começado ali. Com este modus operandi Palocci foi, na verdade, a convergência, ou a verdadeira “concertação”, que acalmou os mercados a tal ponto que nem mesmo a sua queda, posteriormente, mudou a direção das coisas. A área econômica ganhou sua independência, e a economia desligou-se da política.

A seguir, no momento em que chegamos às eleições, é possível enxergar pelo menos quatro realizações econômicas do governo: a manutenção do eixo básico das políticas macro (superávit primário, câmbio flutuante e metas de inflação), a ampliação dos programas de transferência (o Bolsa Família), a ampliação do crédito para a baixa renda e, por último, a bonança internacional, que não é façanha do governo, mas conta, pois com os EUA crescendo desse jeito, até rádio quebrado funciona (FHC pegou grandes pedreiras, Lula, sortudo, nenhuma).

No resto, nem por um segundo o leitor deve esquecer que são continuações e aperfeiçoamentos de políticas desenvolvidas anteriormente. Sim, o BC do PT fez o seu trabalho em levar uma inflação que passava de uns 15% para uns 3%, mas, antes disso, quem foi que roeu o osso de trazer de 5.000% para 2%? A estabilização, por outro lado, deixou claro que a inflação era uma espécie de Bolsa Família ao contrário, tirou milhões de pessoas da miséria, e ensinou a mecânica das transferências de renda materializadas, a seguir, no Bolsa Escola. O fato é que a Estabilização e o Bolsa Escola foram mãe e pai do Bolsa Família.

Quanto ao crescimento do crédito popular, tenha-se claro que teria sido impossível de ocorrer se, em 1994-97 especialmente, não tivesse havido o saneamento do sistema bancário via PROER, PROES, muito capital estrangeiro, fusões, aquisições, capitalizações (inclusive no BB e na CEF, que quebraram, lembram-se?), liquidações e muitas privatizações. Tenho certeza que este governo é profunda e silenciosamente grato ao anterior por não ter tido problemas com bancos, principalmente nos oficiais.

O fato é que a discussão sobre os sucessos econômicos de Lula é inseparável de um posicionamento sobre o legado de FHC. Parece haver, de um lado, um herdeiro por apropriação, indébita por certo, mas tacitamente consentida, e um outro herdeiro biológico, amistoso porém, superficial, quando, talvez, devesse assumidamente adotar o sobrenome e não deixar que Lula se aproprie do que não lhe pertence. É nesse contexto que deve ser entendida esta surpreendente transposição da privatização para os palanques. É pirotecnia sim, coisa de publicitários espertos, ou a intuição do presidente, cujo objetivo não é o debate de mérito, mas desequilibrar Alkimin atacando o seu afastamento do acervo de realizações de onde veio, no passado, a densidade eleitoral do PSDB. Ficando órfã, a privatização, assim como a estabilização e tudo o mais, acaba nas mãos de Lula.

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GUSTAVO H. B. FRANCO é economista e professor da PUC-Rio. Foi Presidente do Banco Central do Brasil.