Ed. 508 - 11/02/2008

 

GUSTAVO H.B. FRANCO
é economista e professor da PUC-Rio e escreve quinzenalmente em ÉPOCA. Foi presidente do Banco Central do Brasil.

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A recessão americana ainda está longe

por Gustavo H. B. Franco

A melhor tese sobre a recessão americana, o fantasma que ronda os mercados, é simples como palavras cruzadas: se estamos discutindo os detalhes de uma definição precisa, é por que ainda estamos longe dela. Uma recessão de verdade não tem nuances nem cores pastel, é preto no branco, enorme, avassaladora, deixando atrás de si um rastro de destruição.

Pode haver certo exagero nesta tese; afinal, há muita coisa entre ventania e furacão. Herbert Saffir e Robert Simpson, estudiosos do assunto, desenvolveram uma escala para definir e qualificar os furacões, que começam apenas quando o vento ultrapassa exatos 117 quilômetros por hora. Abaixo deste número existem apenas tempestades tropicais (que não merecem esta designação quando o vento é menor que 63 quilômetros por hora, abaixo do que temos, em seqüência, temporal, toró, chuva, garoa), e partir daí os furacões são divididos em cinco categorias conforme o vento, a altura das ondas e a pressão atmosférica.

Há também vendavais, trombas d’água e tornados, estes, em particular, descritos através de uma escala própria, desenvolvida por um professor da Universidade de Chicago de nome Fujita; os tornados começam com ventos entre 65 e 117 quilômetros por hora e se dividem em seis categorias conforme o vento e as características da trilha, sendo que a pior, com ventos superiores a 530 quilômetros por hora, existia apenas em simulações até que um caso foi registrado em 1999 em Oklahoma, nos Estados Unidos.

Estas ocorrências provocam fenômenos curiosos: os tornados, por exemplo, ao tocar o solo, suspendem vacas, como vemos nos filmes, mas também pequenos animais – rãs, peixes, cobras e pássaros – que permanecem muito tempo no ar, geralmente congelados, e vão cair bem longe de onde foram sugados. É a chuva de animais, que foi observada com grande espanto em Paracatu em fevereiro de 2007, quando se diz que choveu peixe. Existem muitos relatos desse tipo, pelo mundo todo: ratos na Noruega, salmões e arenques em Essex e cobras em Memphis.

Bem, o leitor deve conhecer também a escala de Charles Richter para terremotos, de 1 a 14, e a escala de Francis Beaufort para condições do mar, de 1 a 12, usada pela Marinha inglesa desde 1830 pelo menos. É claro que todas essas escalas têm grande utilidade, mas é preciso não esquecer que oferecem nada mais que descrições grosseiramente simplificadas dos eventos, e nada dizem sobre a complexidade dos processos geológicos ou climáticos na sua origem.

Tudo isso para dizer que os maiores especialistas em escalas que o mundo conhece são os economistas. Existem centenas de estatísticas diferentes para o que se conhece como o “nível de atividade econômica”, e cada uma delas pode ser apresentada comparando trimestres, semestres, anos, médias, medianas, desvios da média, o que multiplica as possibilidades a números impossíveis.

Com qualquer uma delas é possível compor uma escala e categorizar episódios como de atividade alta, média, medíocre, baixa, muito baixa, horrível, ou definir períodos de expansão, estabilidade, recessão, depressão, suicídio. Tudo sempre muito arbitrário e científico, como dizer que a recessão é quando temos dois trimestres seguidos de taxas negativas para o crescimento do PIB (trimestre contra trimestre, ou trimestre contra o mesmo trimestre do ano anterior? Cartas para a redação). Ou que furacão é só com vento maior que 117 quilômetros por hora, ou quando chove peixe em Paracatu.

No fundo, esse assunto das recessões, e sua inevitabilidade e gravidade, é tão antigo quanto os economistas, e igualmente enganoso. A idéia de que existe um ciclo econômico preciso, composto de uma seqüência inescapável de euforia, angústia, recessão, recuperação, euforia, tudo novamente, tem o mesmo estatuto científico que a noção de que há traços de personalidade que guardam relação com a posição dos astros no momento em que o indivíduo passou pela experiência do parto.

 

 

 

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