Ed. 502 - 31/12/2007

 

GUSTAVO H.B. FRANCO
é economista e professor da PUC-Rio e escreve quinzenalmente em ÉPOCA. Foi presidente do Banco Central do Brasil.

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Lula e o milagre de 2007

por Gustavo H. B. Franco


O ano de 2007 é das grandes narrativas e dos pequenos assassinatos. Mesmo com os tremores hipotecários do segundo semestre, a macroeconomia foi espetacular. O “círculo virtuoso” se acentuou: tudo melhorou, exceto pela inflação, só um bocadinho maior, como quem quisesse ensinar uma lição aos que diziam, no início do ano, que “um pouquinho mais de inflação” seria a recaída do alcoólatra. Até nisso o governo acertou. O Presidente Lula está a um centímetro de proclamar um novo “Milagre Econômico”, iniciativa que, aliás, merece amplo apoio e alguma reflexão.

Diante desse conceito, é provável que, por malícia ou reflexo, ou ambas, um dos mais novos e entusiasmados áulicos do governo, o decano da feitiçaria econômica nacional, o ex-czar Delfim Netto, repita seu velho bordão: nada disso, milagre é efeito sem causa.

Quando proferiu esta portentosa sentença pela primeira vez, o objetivo era o de afirmar uma relação de causa e efeito entre o bom desempenho da economia e a qualidade da política econômica. Na época, a imprensa não podia debater o assunto como em nossos dias, especialmente esse tema da qualidade, e os economistas da oposição, um deles o ex-ministro Pedro Malan, diziam que o vento a favor vindo da economia internacional era tão forte que não precisava de muito marinheiro. Pois é, caro leitor, a primeira ventania veio como tragédia, a segunda como farsa, como reza o clichê.

Causa e efeito, nos assuntos da economia, deveriam andar juntas, em pares monogâmicos, para que o leitor não fique em dúvida sobre a composição dos casais. Com a liberalidade dos costumes, tudo ficou confuso: será que o bom desempenho da economia pertence ao ministro Mantega, ou, em vez disso, é o resultado inevitável de uma conjuntura internacional fabulosamente favorável, sobre a qual o Brasil não tem nenhuma influência? Tirando o que é “piloto automático”, tocado pelo Banco Central e pelo Tesouro através de uma regras rígidas, o que dizer da personalidade da política econômica do governo Lula?

Na verdade, quando se faz a lista dos pequenos assassinatos, fica imensamente reforçada a sensação de que estamos vivendo mesmo um milagre: o mensalão, o mensalinho, os aloprados, sanguessugas, o PAC, os PACs temáticos, o caos aéreo, o deperecimento da infra-estrutura, os recordes de arrecadação, a perda da CPMF, os rolos com a Bolívia, a Venezuela no Mercosul, nós fora da ALCA e da OECD, o banco do Sul, a explosão do gasto público, o aparelhamento em toda parte, a nova TV pública, a política industrial, a falta de reformas, o ministro Mangabeira e o expurgo no IPEA, o ministro Lupi e seu emprego da definição de ética, o prêmio dado ao livro do deputado Genuíno pela Biblioteca Nacional, não há dúvida que 2007 está repleto de pequenas mazelas, tudo perfumaria, todavia, a julgar pelos índices de aprovação ao governo.

É claro que tudo isso ocorre ao redor do “trivial simples” da política econômica ortodoxa herdada e copiada do governo anterior, e apenas sugere que toda vez que algum improviso é tentado fora desta partitura básica, o resultado é sempre ruim. Com efeito, milagre é a economia estar andando tão bem no meio da diversidade. Milagre é a trajetória de Forrest Gump, é almoço grátis em bases consistentes, é o efeito com causa externa, e sem merecimento.

Sim, caro leitor, Deus é brasileiro e está guardando todas as crises e dificuldades para um governo que saiba lidar com essas coisas, o próximo.

 

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