Ed. 490 - 08/10/2007

 

GUSTAVO H.B. FRANCO
é economista e professor da PUC-Rio e escreve quinzenalmente em ÉPOCA. Foi presidente do Banco Central do Brasil.

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A inovação que faz falta ao governo

por Gustavo H. B. Franco


Na semana que passou o Presidente Lula nos explicou o que significa “choque de gestão”, a Ministra Dilma reabilitou o “empresário Schumpeteriano” e a bolsa de valores explodiu de alegria, dando por encerrada a suposta crise das hipotecas americanas, e oferecendo uma indicação de que as referidas autoridades estão cobertas de razão, ou, diferentemente, de que estas idéias, erradas ou muito erradas, não têm a menor importância.

O fato é que as palavras e os conceitos parecem vítimas inocentes de balas perdidas de um debate ideológico já terminado. O capitalismo venceu, e o socialismo foi uma catástrofe, ao contrário do que dizem os livros didáticos que o governo distribui. Talvez por isso se diga que, no Brasil, a História é lenta; as autoridades parecem sempre se equilibrar entre um passado idealizado, um “futuro do pretérito”, e um presente de onde não podem escapar.

O Presidente e a Ministra não defendem as idéias perdedoras, descontadas apenas algumas lambujens atiradas na direção de uma angustiada militância. Pelo contrário, alinham-se ao “choque de gestão”, à eficiência da máquina pública, ao capitalista, e às empresas. E contra essa bobagem de se reestatizar a Vale do Rio Doce.

Pode haver certo contorcionismo retórico nessas manifestações, como as imortalizadas pelo Grande Irmão no “1984” orwelliano, onde o dicionário também trabalhava para o governo. Com efeito, o significado das palavras tem a ver com os usos e costumes do passado, mas como a História começou em 2003, o dicionário vai sendo refeito.

O verbete “clientelismo”, por exemplo, caiu em desuso, de tal sorte que todos os atos antigamente pertinentes a esta acepção antiga, passam a ser designados, a partir desta semana, como “choque de gestão”. Quem lê apenas as manchetes, vale dizer, a maioria dos que lêem jornal, verão que o Presidente é pelo “choque de gestão” e está, por conseguinte, a favor dos envolventes ventos neoliberais globalizantes.

No assunto do empresário dito “schumpeteriano”, saiba o leitor, em primeiro lugar, que a Ministra alude a Joseph Alois Schumpeter (1883-1950), célebre economista austríaco, ex-ministro das finanças de seu país durante a hiperinflação (1919-20), depois professor na Alemanha e emigrado para Harvard, onde se estabelece como professor em 1932. Notabilizou-se pelo estudo da inovação como mola mestra do capitalismo, sendo esta a resposta criativa, a quebra de paradigmas que permite o desenvolvimento econômico.

A Ministra merece muitos aplausos, pois não está citando Gramsci, nem Rosa Luxembrugo, Hilferding, ou qualquer outro economista marxista esquecido, obsoleto e irrelevante, e candidamente reconhece:

- Não é simples ter uma burguesia nacional.

É de se louvar o genuíno empenho em se compreender o admirável mundo novo, embora com as ferramentas erradas. Schumpeter é um bom começo, embora haja um bom par de coisas a observar sobre o velho Schumpeter, uma espécie de “muso” da área de Business History da Harvard Business School, o pior dos antros formadores de quadros para o capitalismo globalizante.

A primeira é que a inovação vem também e principalmente de governos através de reformas que alteram aspectos institucionais importantes da vida econômica. Não está faltando empresário schumpeteriano no Brasil, mas governo inovador que implemente reformas para melhorar o clima de negócios, onde nossa posição nos “rankings” internacionais só faz piorar.

A segunda é mais básica, e com algum exagero proposital: não existe mais burguesia, quem tem os “meios de produção” são os fundos de pensão, expressão fiduciária da classe operária. O empreendedor inovador, as exceções habituais não obstante, se institucionalizou em divisões de pesquisa e desenvolvimento e tem o apoio da indústria do capital de risco (“venture capital”). Não vamos esquecer uma lição do próprio Marx: o capital não é uma pessoa, é uma relação social, tal qual o “empresário schumpeteriano”. Ao personalizar esta figura corremos o risco de se criar uma coisa chamada “empresário chapa branca”, uma distorção que está para a inovação, assim como o clientelismo está para o “choque de gestão”.

 

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