Ed. 488 - 24/09/2007

 

GUSTAVO H.B. FRANCO
é economista e professor da PUC-Rio e escreve quinzenalmente em ÉPOCA. Foi presidente do Banco Central do Brasil.

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O presidente ateniense

por Gustavo H. B. Franco

Como Lula e o PT se apropriaram do discurso da estabilidade econômica

Uma pesquisa recente trouxe a notícia de que o brasileiro acredita que a conquista da estabilidade se deve ao Presidente Lula. O mesmo percentual de brasileiros acredita em discos voadores; as pesquisas de opinião revelam tanto quanto ocultam. O fato é que o Presidente aderiu à estabilidade como estrangeiro naturalizado, de sotaque meio carregado, mas simpático e bonachão, dizendo-se “mais brasileiro” do que nós, pois se tornou brasileiro “por escolha”.

Não há nada a criticar na naturalização, o Brasil, assim como o bom senso, são nações hospitaleiras, e a estabilidade é para ser de todos, é um “Bem Público”, como definem os economistas: ninguém pode ser excluído do seu legítimo desfrute, inclusive os que, no passado não tão longínquo, militaram contra ela.

Tratando-se dos naturalizados, todavia, este desfrute há de ser comedido, a fim de que não se reproduza uma síndrome bem ilustrada por uma imagem, muito utilizada por Machado de Assis para descrever homens dados a exageros inofensivos de suas posses e realizações. Diz-se que havia um cidadão ateniense que não tinha um tostão furado, mas estava convencido de que todos os navios que entravam no Pireu lhe pertenciam. Esse “opulento de barcos e ilusões”, segundo Machado, “não precisou mais para ser feliz. Ia ao porto, mirava os navios e não podia conter o júbilo que traz uma riqueza tão extraordinária”.

A julgar pelas Falas do Trono, a frota do ateniense já inclui as metas de inflação, o superávit primário, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o câmbio flutuante amortecido, o FMI, a CPMF, a DRU (antigo Fundo Social de Emergência), a Bolsa Escola Anabolizada (conhecida como Bolsa Família), e o “grau de investimento”.

A imagem do ateniense me ocorre também diante das advertências do nosso presidente ao dos EUA sobre a crise financeira das hipotecas de quinta (tradução ateniense para “subprime mortgages”):

- Cuide do que é seu.

Bush deve ter pensado que o conselho era bom e por isso mesmo fez pronunciamento à nação no qual anunciou que linhas de crédito seriam oferecidas a bancos para apoiar renegociações de mutuários da casa própria que estavam passando por dificuldades para honrar suas prestações.

Diante deste anúncio, o ateniense aqui do Sul, como o de Machado, teria exclamado:

- Este navio é meu!

Enquanto isso, na Europa, linhas semelhantes de apoio a bancos foram implementadas pelo Banco Central Europeu, e mais recentemente no Reino Unido, o Banco da Inglaterra socorreu um banco especializado em hipotecas de nome Nothern Rock (A Rocha Nortista, outra tradução literal), com destaque para as oferecidas para pessoas de baixa renda. Só faltava que a Rocha fosse Nordestina para que o ateniense gritasse com ainda mais ênfase:

- Este também é meu.

Sem saber de nada disso, o editorialista do Financial Times andou criticando o Banco da Inglaterra. Outros tantos criticaram até mesmo a queda nos juros nos EUA: se não há cadáveres nas crises, a imprudência permanece impune e incentivada. É o chamado “Moral Hazard” (geralmente traduzido, em versão literal, como “risco moral”, eu preferia “A Tentação do Imoral”). Isso de se ajudar os bancos em momentos de crise é sempre controverso: para se salvar as vítimas inocentes de um naufrágio financeiro, é preciso alocar os prejuízos àqueles que provocaram a confusão.

Diante desses debates, um assessor palaciano observa ao Presidente:

- Este seu navio mais recente é de grande serventia, pois protege os demais. Nada pode ser pior para a sua frota que uma crise bancária. Porém, este navio se chama PROER, e está entre tantas outras embarcações que procuramos afundar no passado e depois mudamos de idéia. O Patrão tem certeza que devemos absorver mais este navio entre os nossos?

E o ateniense, então, grave, mas com ar trivial, transigiu:

- Tem razão, companheiro, nossa frota já nos atende muito bem. Melhor que esses veículos mais polêmicos fiquem com outros. Mande fazer uma estátua e ponha naquele porão onde escondemos as que o Ministro Pallocci mandou fazer para o seu antecessor. E não conte para ninguém; é claro.

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