Ed. 475 - 02/07/2007
NOSSA ECONOMIA
O PROTECIONISMO GOURMET
por Gustavo H. B. Franco
 
GUSTAVO H.B. FRANCO
é economista e professor da PUC-Rio e escreve quinzenalmente em ÉPOCA. Foi presidente do Banco Central do Brasil.

http://www.gfranco.com.br/
gfranco@edglobo.com.br

Muito se fala sobre esta incômoda patologia representada pela abundância de dólares. Muitos outros acham que não se trata de doença, holandesa ou tropical, e que o problema, no fundo, é velho e conhecido, é a falta de importação. Nesse sentido, tem circulado a provocativa idéia de uma rebaixa geral e temporária de impedimentos à importação, não propriamente para promover um festival, mas para dar credibilidade ao um movimento, este sim fundamental, na direção de mais abertura em caráter permanente. O choque temporário, ou a “promoção”, não é essencial, apenas serve para apressar o relógio, ou para e para sacudir a tendência até agora inexorável do câmbio para subsolo.

Não é preciso aqui incomodar o leitor com os detalhes, pois o diabo, nesse caso está também e principalmente no espírito da coisa, ou seja, na idéia de se tornar o Brasil uma economia efetivamente mais aberta.

Com efeito, a importação é um fenômeno que desperta as mais ambíguas sensações. Toda a vida foi um privilégio, um luxo desnecessário, um supérfluo prejudicial à indústria nacional. A carga negativa associada ao importado é a mesma associada à idéia de “dependência, o que quer que isto signifique, e inversamente proporcional às mensagens subliminares positivas envolvidas em conceitos como “auto-suficiência” e “soberania”.

Nada, todavia, poderia ser mais antigo.

No mundo de hoje, está bem quem apostou em “interdependência” e “produção internacional”, e abandonou a noção de “auto-suficiência”. Que o digam a China e a Índia; que o maldigam a Coréia do Norte. Até mesmo a Albânia abjurou a cartilha de isolamento que a tornou um pequeno museu, ou um brechó da década de 1930.

Aqui no Brasil, enquanto isso, como de hábito, vamos procrastinando tudo o que é mudança. Cresce, neste curioso microclima, uma exótica flor no pântano ideológico em que estamos: a noção de que não devemos “gastar a bonança de divisas” em consumo, mas em investimento. Sim, prezado leitor, estamos entrando no perigoso terreno do senso comum, de onde sempre saem as maiores trapalhadas em matéria econômica, e esta não é uma exceção.

Tão obsoleta quanto a idéia de “auto-suficiência”, é a de um planejamento com tonalidades meio soviéticas segundo o qual a importação deve se concentrar em “BK”. Os Comissários do Povo falam um idioma muito deles: “BK” designa “bens de capital”, as populares máquinas, e o leitor que pergunte a um desses senhores se um computador é “BK” ou “BC”, bem de consumo, este sempre merecedor das piores classificações indicativas.

O “BCI” (bem de consumo importado), há anos é tomado como inimigo do povo. Em muitas lojas, o destaque dado à seção de importados merece olhares de reprovação como os destinados aos cantinhos onde ficam os filmes para adultos. Em contraste, o “BK” importado é do Bem e serve ao desenvolvimento, especialmente quando não tem “similar nacional”, tal como atestado por associação de produtores brasileiros. Mais velho que isso, e que a Sé de Braga, só um “plano qüinqüenal”.

E o debate continua, geralmente nos restaurantes, onde muito se fala de assuntos de comércio exterior. Talvez por que o tema seja polêmico, e os jornalistas gostam de levar suas fontes para almoçar boas refeições, sempre debitadas à pessoa jurídica. Bem tratada, a “fonte” pode ser que faça inconfidências, mas não se sabe se, ao contrário, dirá apenas o que o jornalista quer ouvir. O fato é que, nos restaurantes caros nas alamedas paulistas mais elegantes, as massas italianas, vinhos franceses, e salmões chilenos têm sido expectadores constrangidos de discursos patéticos contra o uso das divisas nacionais em consumo supérfluo. Tínhamos, antigamente, a “esquerda festiva”; hoje, um de seus descendentes mais conspícuos é o “protecionista gourmet”.

Um protecionista bem constituído, cidadão do mundo, não almoça um feijãozinho com farofa durante um debate sobre a abertura; será no mínimo um bacalhau da Noruega com azeite português, importados mais experientes, acostumados com as restrições brasileiras e, principalmente, sem “similar”. O mesmo vale, é claro, para o “gran finale”, um charutinho cubano.

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