Revista Época

 

 

Edição 464 – 09/04/2007

 

O novo PIB e os macetes da estatística

Gustavo H. B. Franco

 

A revisão do cálculo do PIB produziu aquela incômoda sensação associada a um vaticínio que se tornou celebre, graças ao ex-ministro Pedro Malan: no Brasil, o passado também é incerto.

O problema com o PIB, contudo, não é judicial, mas estatístico, um terreno onde faz tempo que não registramos polêmicas. No passado (e hoje na Argentina), as querelas invariavelmente envolviam tentativas do governo de “mexer” em índices que o incomodavam, tipicamente a inflação.

No caso em tela, é certo que as queixas contra o baixo crescimento estão em toda parte; a ocasião não podia ser melhor para uma “mexida” no PIB. Todavia, a comunidade dos economistas, este incluído, aceitou e aplaudiu os novos números sem qualquer discussão.

Existem pelo menos três boas razões para essa boa vontade: primeiro, o IBGE dispõe de vasto e merecido patrimônio de credibilidade; segundo, as falhas no cálculo do PIB eram tão sabidamente gritantes que qualquer melhoria era bem vinda; e por último, não houve “politização” do assunto por que a oposição, mais uma vez, demonstrou maturidade (ou ingenuidade?) em não azucrinar o governo por conta de assunto técnico encaminhado de forma técnica. Pessoalmente, duvido que algo desse tipo pudesse ser feito durante o governo FHC sem que a Oposição fizesse um carnaval, e as fraquezas metodológicas do PIB eram exatamente do mesmo tamanho ou maiores.

Não vamos aqui entrar no mérito da metodologia, não se assuste leitor. Explicar o que é o PIB já é suficientemente difícil para justificar a adoção de definições mais ou menos erradas na grande imprensa (como: “o PIB é a soma de todas as riquezas produzidas no país durante certo período”). O essencial é que se trata de uma medida de “tamanho” da economia, cuja variação é a principal métrica do progresso econômico.

A precariedade da medida é inevitável, quer seja conceitual (o que é “valor adicionado” no setor financeiro?), ou prática (como medir, ou melhor, imputar, as “rendas” das donas de casa “não assalariadas”?). A economia “informal”, a mais popular das perguntas sobre a medição do PIB, é certamente um problema sério, pois os estatísticos são obrigados observar a atividade econômica por muitos ângulos diferentes daquele (não) reportado para as autoridades tributárias, e essas observações “indiretas” nem sempre são exatas.

Por tudo isso sempre se assumiu que, mais importante que medir o PIB em termos absolutos, era manter uma mesma metodologia ao longo do tempo a fim de que não se perdesse a comparabilidade entre presente e passado. Com esta ênfase, todavia, o problema era sacrificar a comparabilidade internacional, o que, inevitavelmente, era dificultado pela nossa inflação, essa sim incomparável. O leitor pode imaginar como foi o trabalho de medir o PIB em 1990, quando a inflação do primeiro trimestre acumulou 250% pelo INPC, e em março tivemos o Plano Collor?

Bem, o tempo passou, chegou o momento da revisão que, ao final, eleva a estimativa para o PIB em uns 10% e melhora as taxas de crescimento do período recente. Temos mais comparabilidade internacional, mas não vamos esquecer que existem “macetes” em todas as estatísticas do mundo: quem confia inteiramente nas estatísticas chinesas?

Ademais, o PIB não é propriamente uma medida de “felicidade”. Existem países ricos e infelizes, não é mesmo? A Suécia, por exemplo, para 2002, tinha um PIB per capita de US$ 26 mil, mais do triplo do Brasil, com US$ 7,8 mil; em compensação a taxa de suicídios era de 19,7 para homens e 8,0 para mulheres, para cada 100 mil habitantes, enquanto que, no Brasil, os números correspondentes eram três vezes menores: 6,6 e 1,8.

Pois é: será que somos mais alegres do que eles, ou será que o problema é com as estatísticas suecas de suicídio que, contrariamente às nossas, enquadram como suicídio as mortes decorrentes de acidentes de trânsito onde houve excesso de velocidade e ultrapassagem em local proibido?

 

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GUSTAVO H. B. FRANCO é economista e professor da PUC-Rio. Foi Presidente do Banco Central do Brasil.