Revista Época

 

 

Edição 460 – 12/03/2007

 

Santa turbulência

Gustavo H. B. Franco

 

Há várias razões para celebrar a turbulência recente.

Nos últimos dois anos o Banco Central do Brasil tem gasto cerca de 5 bilhões de dólares mensais para evitar uma queda maior da taxa de câmbio. Em fevereiro apenas o valor das intervenções chegou a 9 bilhões. Pois bem, em meio a esse drama cotidiano de nossa autoridade monetária, o que pode ser melhor que uma turbulência financeira no Oriente, de origens meio estranhas, que faz despencar a Bolsa, o que, para o BC, não tem a menor importância, mas, simultaneamente, chuta o câmbio para cima sem que seja necessário gastar um tostão?

Como se não bastasse, a turbulência começa na Ásia na madrugada que antecede a uma audiência do Doutor Henrique Meirelles no Senado, onde o Presidente do BC seria duramente questionado sobre o já proverbial conservadorismo da política monetária, e tendo como pano de fundo a sua “não confirmação” no cargo e fortes pressões para mudanças na sua diretoria.

Os inimigos da Moeda Sadia prepararam seus ataques com esmero, mas o espectro de uma nova crise vinda do Oriente, que não se podia dizer o tamanho, imunizava o BC de qualquer acusação ou crítica. O Senador Mercadante vociferou e pontificou, como dele se esperava, mas as manchetes do dia seguinte traziam belas fotos do doutor Meirelles falando com firmeza sobre “cautela”, enquanto que os questionadores soavam histriônicos e deslocados.

O “timing” da turbulência não poderia ser melhor. E mais.

Passaram-se mais alguns dias de turbulência, e ocorre uma curiosa “dança de cadeiras: de um lado, a saída já prevista do Diretor Affonso Bevilaqua, um dos mais eficientes e importantes combatentes do Ministério da Defesa (da Moeda), saudada com manchetes do tipo “PIB fraco derruba chefe dos falcões no BC”. De outro, a incrível nomeação feita para a nossa representação no FMI, para a qual uma boa explicação seria a de que, a notícia era boa, pois servia para afastar em definitivo esse cidadão de uma diretoria do BC.

Talvez nunca saibamos como foi o “quid pro quo” que resultou nessas movimentações, mas parece plausível acreditar que a turbulência ajudou muito a evitar alguma bobagem.

Em seguida vieram os números fracos do PIB brasileiro, nenhuma surpresa, só a simulada pelas autoridades, de cujo semblante carregado vinha a ressentida observação de que o número vinha “melhor que o previsto pelos analistas”. Muita irritação na referência aos “analistas”, como se quisessem dizer “esses abutres que fazem contas”.

Veio o rotineiro coro de descontentes desancando o BC, o suposto culpado de o Brasil não crescer, mas em meio a muitas análises equilibradas ressaltando fatores mais fundamentais que nos impedem de crescer mais e que deveriam ser objeto de reformas que nunca o governo quer considerar.

E veio a reunião do COPOM, que com precisão trigonométrica entregou os 0,25% de queda já previstos, agora com os descontentes comandados pela FIESP cantando suas ladainhas algumas oitavas abaixo do habitual.

Tudo em paz novamente, inclusive com sinais de que a turbulência já está passando, e o BC já comprando dólares novamente, em grandes quantidades.

Falta, é claro, a confirmação do doutor Meirelles e de sua diretoria.

Moral da História: Os desastres aéreos, como os financeiros, ocorrem muito raramente, principalmente se considerado o tamanho do movimento. E quando ocorrem sempre envolvem uma combinação de muitos pequenos erros em seqüência, nenhum dos quais, individualmente, capaz de gerar um fato grave.

Na aviação, como nas finanças, os “pequenos erros” provavelmente ocorrem com uma freqüência maior do que imaginamos, mas quase nunca em combinação concentrada o suficiente para ter conseqüências relevantes. Na grande maioria dos casos, nem ficamos sabendo.

Nos mercados financeiros, diferentemente da aviação, a turbulência é muito útil, como agora demonstrado. Serve para arrumar a casa, e lembrar às pessoas sobre as coisas realmente importantes. Talvez até merecêssemos um tanto mais de turbulência, pois o governo Lula está mal acostumado, emitindo sinais preocupantes de que acredita em refeições gratuitas.

 

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GUSTAVO H. B. FRANCO é economista e professor da PUC-Rio. Foi Presidente do Banco Central do Brasil.