Perguntas enviadas por Rafael Carriello - Folha de S. Paulo em 23.10.2008

(respostas enviadas em 02.11.2008)

 

 

(1) Em coluna publicada em setembro na Folha, o sr. apresenta o humanitismo como uma alegoria farsesca da dialética, até mesmo do materialismo dialético ("Conforme explica Quincas Borba: o princípio da humanitas é "o encontro de duas expansões", uma das quais é vitoriosa, donde "o caráter conservador e benéfico da guerra" e o célebre exemplo das duas tribos famintas diante de um campo de batatas."). A leitura hegemônica sobre Machado no Brasil nos últimos 30 anos, de Roberto Schwarz, pretende de fato conciliar certa crítica marxista à sociedade brasileira com a obra de maturidade do escritor fluminense. O sr. discorda dessa leitura?

 

Eu aprecio muito o trabalho de Roberto Schwarz, mas não creio que se deva dizer que ele seja proprietário dessa “leitura hegemônica” da obra de MDA. Nem me parece que o próprio gostasse de sentar-se nesta cadeira, a julgar pelos seus encantadores “19 princípios da crítica literária”, um dos quais (aliás três dos quais) o de que o marxismo é um reducionismo, e está superado pelo estruturalismo, pela fenomenologia ... e outras tantas coisas. Outro princípio era o de que era sempre interessante acusar os críticos de mais de 40 anos de impressionismo, os de esquerda de sociologismo, os minuciosos de formalismo, e reclamar para si uma posição de equilíbrio. Esses princípios não pertencem a  quem faz “leitura hegemônica” de coisa alguma, ainda mais de MDA. Indo mais além, não sei bem se reduziria o olhar de Schwarz sobre MDA a “uma leitura marxista”, ao menos como se vê em Astrogildo Pereira. Na verdade, o fato de a leitura ser de fato marxista não atrapalha nada. É legítimo e compreensível que a esquerda goste de enquadrar MDA em seus cânones para reverenciá-lo sem culpas. Nada contra. Nada contra a noção de que o liberalismo era uma “idéia fora do lugar” no universo ficcional machadiano; mas o mesmo se pode dizer, até com mais ênfase, da luta de classes e do marxismo. Faoro oferece perspectivas um tanto diferentes desses extremos ideológicos, e com esplêndidos resultados em se mesclar crítica e história. Faoro poderia também ser um candidato a esta “hegemonia”. No fundo, cada um lê MDA como deseja; ele pertence à todos nós, e não existe “leitura hegemônica”.

 

  

(2) A reunião de crônicas "econômicas" de Machado, feita pelo sr., pode servir para se ter uma outra leitura da crítica de Machado à sociedade de sua época? Que crítica é essa? (não ficou claro para mim qual era exatamente esse "olhar oblíquo do acionista". significa seu pessimismo amplo, não só em relação à elite, mas a todo o "barro humano"?)

 

Bem para começar, é muito interessante perceber que MDA construiu um enredo com essas crônicas econômicas, onde aparece repetidamente um personagem pouco ou nada estudado, o Acionista, um tipo como Policarpo o relojoeiro, que se repete nas crônicas, e serve a uma alegoria. Quem é o acionista? Ele se parece com Brás Cubas no seu arrivismo, na sua falta de ética e dessintonia com o que hoje chamaríamos das “boas práticas de governança corporativa”. O acionista parece nos dizer que os rituais corporativos são tolos, que o capitalismo da época era uma farsa conveniente, e que o Brasil era uma sociedade de privilégios governados em última instância pelo Imperador. Esse acionista é muito “oblíquo” quando comparado ao de hoje, pois é, na verdade, um rentista, um “rent seeker”, um “cliente cativo” do Estado, e a argamassa da “Nação Mercantilista”. É tudo que o acionista de hoje não deve ser. O “olhar oblíquo” deste acionista machadiano sobre as rotinas das empresas revela em detalhes as engrenagens desta organização social complexa às vezes chamada de patrimonialismo, ou de forma mais tosca, de “capitalismo chapa branca” ainda tão presente em nossos dias.  

 

 

(3) Segundo a leitura de Schwarz, nas obras de maturidade Machado faz uma crítica da elite brasileira, dos proprietários, de sua volubilidade ideológica etc. O sr. diria, como outros críticos de Schwarz já fizeram, que Machado era crítico da ausência de capitalismo/liberalismo no Brasil? 

 

De minha parte, entendo que o enredo do acionista machadiano nada tem de inconsistente com nada que eu tenha lido em Schwarz. O capitalismo liberal era uma “idéia fora do lugar” naquela ocasião, e curiosamente ainda o seria por muitos anos mesmo depois de abolida a escravidão.  Vale o reparo de que não é apenas a escravidão que pervertia a nossa ordem social naqueles tempos. Os traços patrimonialistas, a disseminação do “rent-seeking”, e a pilhagem do Estado e das empresas (dependentes do Estado) pelos controladores e dirigentes em detrimento de “outsiders” permanecem atuais. O tema do acionista machadiano é o caráter, ou melhor dizendo, a falta de caráter, ou o mau caráter do capitalismo brasileiro. O que pode ser mais atual? MDA usa o acionista para divertir-se, e divertir-nos com as perversões desta “casa”, onde não tem meritocracia e capitalismo, apenas hierarquias e sinecuras. É a mesma “casa” depois estudada por Roberto Da Matta, mas é interessante que MDA não necessariamente nos indica a porta da “rua”, seja ela o “mercado”, ou a “revolução”. MDA não faz manifestos, não aponta soluções .

 

(4) Em carta à Folha, respondendo uma crítica àquela sua coluna sobre o humanitismo, o sr. dá a entender que encarcerar Machado nesta ou naquela interpretação é trair o espírito do autor do enigma de Capitu. A visão de Machado sobre a sociedade brasileira é um enigma parecido ou é possível ser um pouco mais assertivo sobre suas opiniões?

 

Não creio que a mensagem trazida pelo acionista seja um enigma, ou uma idéia vaga; é uma alegoria muito informativa e bem construída. É uma imagem que vale mais que mil panfletos. Esta é a forma que o autor utilizou para construir a sua visão da economia e da política dos tempos em que viveu. Ele não indica posicionamentos e programas com o intuito reformador. Não é o seu feitio, como bem se sabe. Numa de suas melhores crônicas, onde dá conselhos à sua própria caneta, ele afirma que “o pugilato das idéias é muito pior que o das ruas ... sê entusiasta para o gênio, cordial para o talento, desdenhosa para a nulidade, justiceira sempre, tudo isso com aquelas meias tintas tão necessárias aos melhores efeitos da pintura”. Nada mais atual que o “tédio à controvérsia”, pois não há mais o “muro”, diante do qual era preciso escolher um lado. MDA não é um intelectual engajado e cheio de opiniões, e por isso mesmo provoca um certo espeto à esquerda, onde as pessoas querem encontrar um motivo para gostar dele; e assim mesmo, ou ficam com vergonha de encantar-se com um reacionário alienado, ou se iludem que MDA era um revolucionário engasgado em sutilezas.