Folha de São Paulo - 23/11/94

Exportem suas indústrias
Antonio Delfim Netto


Há 45 anos, quando ainda se estudava teoria do valor na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da USP, os alunos sofriam uma enormidade com o livro de Sir John Hicks, "Value and Capital".
Naquele tempo ele ainda não era considerado um dos melhores economistas deste século, nem havia recebido o prêmio Nobel (que ainda não existia), nem havia sido elevado à categoria de Sir, mas já era maduro para ensinar aos seus leitores que "a economia pura tem o hábito extraordinário de tirar coelhos da cartola: proposições aparentemente 'a priori' que aparentemente se referem à realidade". E acrescentava, "é fascinante descobrir como os coelhos foram parar lá. Os que não acreditam em mágica têm de ser convencidos como isso acontece" ("Value and Capital", 1946, pág. 23).
Essa passagem veio à nossa mente quando lemos que uma autoridade monetária disse a um grupo de industriais boquiabertos que "da mesma forma que o Japão exportou a sua indústria têxtil para a Coréia quando sua moeda ficou forte e esta para a China, quando a sua própria moeda se fortaleceu, o Brasil talvez também tenha que exportar alguma indústria!" E ainda por cima acrescentou que se o governo não fosse bonzinho, o dólar estaria a R$ 0,50.
Modéstia, basta manter a taxa de juro real dez vezes maior do que a internacional e o resultado poderia ser o dólar a R$ 0,40! No final, teríamos realizado o sonho dos "papeleiros": uma economia só de consumidores vivendo das "rendas" derivadas da aplicação das suas poupanças no financiamento da dívida do governo! E o Banco Central do Brasil receberia o Prêmio Nobel de Física, por ter construído o primeiro mecanismo que viola a segunda lei da termodinâmica: o moto-perpétuo!
A crônica é de que os industriais se retiraram envergonhados com o que fizeram ao país. Tiveram de reconhecer, diante dos argumentos da moderna "teoria econômica", que eram um bando de idiotas. Que insistiram na ineficiência e no atraso tecnológico. Que exportaram apenas porque eram protegidos. Que davam empregos e se submetiam a taxas de juros passiva escorchante, quando podiam, com maior eficiência e benefício, obtê-la ativa escorchando o governo!
Vexados, entenderam claramente que deixam muito a desejar em matéria de inteligência. Imaginem: continuavam a insistir na produção de "parafusos". Estão perdendo a oportunidade de dispensar seus trabalhadores e aplicar em "papéis" do governo os recursos obtidos com a exportação de suas indústrias. Foram escornados e com razão!
PS (à moda de Dimenstein) – Os humilhados industriais não ousaram pedir explicações de como os coelhos foram parar na cartola do técnico: a prova empírica do que falava! Entre 1966/70 e 1989/93, a taxa de inflação (ICV) na Coréia cresceu, em média, 10,8% ao ano. No mesmo período, o ICV americano cresceu 6,0% ao ano. A taxa de câmbio nominal da Coréia passou de 290 won para 748 won por dólar, com um aumento de 4,2% ao ano, ou seja, praticamente a diferença entre as duas taxas de inflação (a taxa real de câmbio desvalorizou-se entre 1985/1993 em 0,9% ao ano). Onde está a "valorização" que exportou a indústria têxtil coreana para a China? Talvez a autoridade se referisse à relação câmbio/salário, mas essa é outra história em que a produtividade faz a diferença...

Antonio Delfim Netto escreve às quartas-feiras nesta coluna.