Ao senhor

Antoninho Marmo Trevisan

Trevisan Auditores

Rio de Janeiro, 8 de abril de 2002

Prezado Antoninho,

 

Foi com tristeza e decepção que li a “carta ao leitor”, intitulada “Contadores e auditores na guilhotina”, no número mais recente (n. 163, ano XV) da sua Revista Trevisan, que recebo regularmente por gentileza, ou por descuido. O texto começa como se segue:

 

“Certa feita, um ex-presidente do Banco Central acusou os contabilistas de serem responsáveis pela inflação no Brasil. Desconhecendo a essência e a aplicação nos negócios do princípio das partidas dobradas ... dizia ele que o tal princípio contábil levava ingênuos deputados a votarem um orçamento público que acreditavam prudente. E mais, induzia a mídia a crer que não se operava com déficits e que o orçamento era equilibrado”

 

Tive de recorrer a arquivos para recuperar um artigo meu (“Abaixo a repressão fiscal”), escrito para o Estadão em 4 de abril de 1999, 3 anos atrás (em anexo, para recordar, com o trecho que lhe incomodou em itálicos) que provocou um artigo seu para a Carta Capital na edição de 28 de abril de 1999, intitulado "Luca Paciolo e Gustavo Franco". Eu mesmo escrevi não apenas uma, mas duas respostas para a Carta Capital, um delas anexa, “Trevisan e o déficit orçamentário”, originalmente de 2 de agosto de 1999, está reproduzida adiante.

 

Eu estou com dificuldades para acreditar que de nosso diálogo, ou “polêmica”, de 3 anos atrás, não tenha lhe servido para coisa alguma. Apenas desta forma eu compreenderia o trecho acima. Vejo que de nada adiantou dialogar, explicar e argumentar. Que tolice dizer que acusei os contabilistas pela inflação ! Que tolice me acusar de desconhecer partidas dobradas ! Francamente, admito que o amigo possa acreditar ter idéias melhores que as minhas no campo econômico, ou cambial, é seu direito, mas tomar-me como ignorante diante de seus leitores é ofensivo e indigno da sua inteligência.

 

Minha decepção é ainda maior pois enganei-me redondamente ao achar que havíamos, afinal, chegado a um consenso. Nossa “polêmica” acabou com festejos recíprocos, e agora vejo agora que era falso seu aparente convencimento, e que sua falta de vontade de continuar debatendo não era sintoma de esgotamento do assunto, ou convergência de pontos de vista, mas da sua absoluta incapacidade de seguir argumentando. Não é tão sério perder uma discussão, ver-se forçado a reconhecer um erro, como lhe aconteceu, pois acontece com qualquer pessoa que disponha de opinião e caráter. Lamentável mesmo é fingir-se indiferente ou desinteressado, sair de fininho de um debate perdido para, 3 anos depois, voltar ao assunto pelas costas.

 

 Lembro-me que, na ocasião, um de seus argumentos era o de que seus colegas contabilistas estavam ofendidos com meu artigo e que sua postura era apenas para responder a este seu público específico. Pois bem, posso sentir o mesmo problema agora: uma gracinha sem graça, e sem fundamento na Verdade, a fim de divertir seus amigos contabilistas. Não é digno de sua estatura profissional fazer proselitismo faltando respeito com a Verdade e comigo pessoalmente.

 

Como não estou preocupado com seu público e não me interessa prosseguir esse nosso diálogo de surdos em nenhum outro foro, apenas escrevo para registrar que não passou desapercebida a desfeita. Os poucos amigos comuns, todavia, pessoas que trabalharam conosco e que têm condições de olhar os dois lados, estes eu acho que devem se interessar por este diálogo. Para estes remeto cópias dessa tertúlia, para seu divertimento ou consternação.

 

Atenciosamente

 

 

Gustavo H. B. Franco