Folha de S. Paulo, 8/6/92

                                               Câmara setorial: o caminho da modernidade

                                                                    Alencar Burti*

     O  alcance  da  primeira  vitória  obtida pela câmara setorial da indústria automobilística ,  que se refletiu no incremento  das  vendas  de  veículos em função direta da redução de preços negociada por todos os segmentos envolvidos,  mostrou,  de forma inequívoca,  a importância e a responsabilidade que o setor privado passa a ter no âmbito dessa mesma câmara.

     O   fato   marcou  o  fim  de  quase  três  décadas  de  decisões   unilaterais  emanadas  do  governo   federal,  que acreditava cegamente ser capaz de dizer aos empresários como eles deveriam conduzir seus negócios,  por meio de instituições desligadas da modernidade como o CIP  (Conselho Interministerial de Preços) e os  GEPs (Grupos de Estudos de Pesquisa Setorial).

     Dividir  responsabilidades  e  democratizar  o  sistema  têm  sido  traços positivos do governo Collor.  Esses traços  se  consolidam  de  forma  prática  nas câmaras setoriais,  uma boa idéia que ganha amplitude devido ao correto gerenciamento por parte das equipes do Ministério da Economia e da Secretaria de Economia.

     Os resultados altamente benéficos para a sociedade, originados pelo primeiro acordo setorial de preços a ser posto  em  prática    um  privilégio  e  uma  demonstração  de  maturidade  do parque automotivo  -,  só fazem aumentar a responsabilidade do setor e devem gerar efeito multiplicador.

     Cabe  agora  a  todos  os  participantes  da  câmara  setorial  não  apenas  manter  íntegros  os princípios que orientaram esse primeiro acordo.

     É essa a oportunidade ideal para o empresáriado acabar com a dicotomia  – absurda no mundo moderno – que causava e ainda causa o divórcio entre o Estado e a iniciativa privada.

     A  câmara  setorial  não  busca  a  liberdade  irresponsável  de  preços,  nem  permite o ressurgimento de um estatismo  míope,  capaz  apenas  de  inchar  a  máquina estatal que,  além de superada,  extrapola suas funções básicas, como educação, saúde, segurança, e a arbitragem das relações econômicas nas atividades internas.

     As câmaras setoriais devem ser olhadas através de um prisma amplo e não sob a visão estreita dos objetivos mesquinhos  ou  dos  interesses  individuais.  Elas  garantem  a  igualdade  nos direitos de  defesa  de  todos  os envolvidos.   E  requerem  um  misto  de pragmatismo e    por que não?     de patriotismo,  conjugados numa perspectiva de longo alcance que poderá garantir o papel histórico que lhes está reservado.

     Mas  a  busca  desse  consenso  implica,  ao  contrário  do  que  se  imagina,   o  sacrifício  de  margens  dos participantes,  o  que  representará  um  investimento  de  médio  prazo.  Será  preciso  procurar a convergência de interesses e, por meio dela, as soluções para os problemas de cada setor envolvido.

     Essa  deverá  ser  a  visão   das  câmaras  setoriais  a  partir  das  bases,   representadas  pelos  trabalhadores, fabricantes de matérias-primas e componentes, pela indústria final, pelo governo e pelos distribuidores, que em última instância devem ter como objetivo defender o interesse do consumidor.

     Dizer  que  a  distribuição  deve  brigar pelo consumidor não significa apelar para a benemerência,  mas sim para a sobrevivência do próprio setor, que dele depende fundamentalmente.

     Mas  o  consumidor    será  realmente  defendido  em  seus interesses na medida em que todas as ações da câmara  setorial  forem  adotadas  com  total  transparência,  sem  receio  de reivindicar ganhos legítimos,  mas também  sem  medo  de  exigir uma contribuição justa para um Estado justo,  com impostos legítimos,  no qual reformas  tributárias  não  representem  somente  ajustes de caixa para o governo,  prática que gera descrédito e reações negativas por parte de todas as camadas que compõem a sociedade.

     Para essa  finalidade  é  que  todos  os  participantes  devem  preservar  a  existência das câmaras setoriais e prepará-las para um futuro próximo, no qual  sua presença seja  cada vez  mais marcante e mais comprometida com as práticas em vigor no Primeiro Mundo.

Essa é uma exigência da moderna economia de mercado, feita em nome da transparência que deve presidir as relações de interesse que possam interferir direta ou indiretamente na vida do consumidor. É preciso sempre ter  em  mente  que  os  atos do empresariado,  especialmente os do ramo de distribuição,  estarão sempre sob a análise e o julgamento desse público, que dia-a-dia se torna mais cônscio de seus direitos.

 

 

*Alencar Burti   63   é   empresário   e   presidente   da   Federação   Nacional   da   Distribuidora  de  Veículos Automotores (Fenabrave)