Folha de São Paulo, 30/3/92

Inflação, câmaras setoriais e o caminho

Aloizio Mercadante

 

     O  acordo  firmado  pela  indústria  automotiva,  governo  e  metalúrgicos  pode  representar uma ruptura na conjuntura  recessiva e inflacionária do país.  Podemos estar um caminho novo de combate à inflação de forma

democrática,   negociada  e  anti-recessiva.   Pela  primeira  vez,   as  câmaras  setoriais  com  participação  dos sindicatos  são  utilizadas  como  foram  concebidas.  Desde  quando  propus  e  conquistamos este instrumento através  do  Congresso,  por  ocasião  das  negociações  do  Plano  Collor 2,  nos  defrontamos com uma grande resistência por parte da antiga equipe econômica do governo. As câmaras foram esvaziadas, ou reduzidas a um balcão de reclamações por reajustes de preços pelo empresariado.

     Desta  vez  não.  A  iniciativa   de  Vicentinho  e  das  diretorias  dos  sindicatos  metalúrgicos  do ABC,  de exigir  uma  discussão  aprofundada  sobre a crise da indústria automobilística e de propor um novo patamar de negociação entre trabalhadores,  governo e toda a cadeia produtiva, abriu novos horizontes para a sociedade. O acordo  resultou  de  um  processo  de  negociação  muito  difícil.  Além  dos  grandes interesses que envolveu, encontramos  grandes  dificuldades  de  convencer   governo  e   montadoras  em   correrem   riscos  e  reverem privilégios  e  padrões  de  comportamento  desgastados  ao  longo  desta  crise  econômica.  Mas  é  um acordo que  pode  permitir  a  alavancagem  das  vendas  e  da produção de um setor que tem o maior nível de relações inter-industrial,   que   produz   11%   do   PIB   e   emprega   diretamente  650.000  trabalhadores.   Seu  efeito multiplicador pode ser muito importante para a reativação da economia.

     As montadoras preparavam mais um reajuste de preços para a primeira semana de abril e 10.000 demissões. Agora  temos  uma  redução  de  22%  nos  preços,  estabilidade  no  emprego e garantia de salário real por três meses.  A  perspectiva  de  moralização  dos  consórcios  até  2 de abril,  que  representam um terço das vendas no setor. A reabertura com regras claras, excluindo as empresas irresponsáveis, pode contribuir para estabilizar a  retomada  das  vendas.  As  empresas  também  firmaram  o  compromisso  de  iniciarem uma negociação do contrato  coletivo  de  trabalho  e  apresentarem  até  junho  um plano de investimentos no Brasil.  Isto deve ser apenas o início de uma reestruturação de um setor estratégico da indústria que envelheceu tecnologicamente.

     O Brasil está estagnado no nível de um milhão de veículos ao ano desde 1980. O México, que produzia 400 mil  veículos  por  ano em 1987,  já está produzindo um milhão.  A Coréia ,  que produzia 200 mil veículos em 1980,    atingiu  1,4 milhão.  Nós  representamos  pouco no mercado mundial de veículos e estamos perdendo posição  entre  os  países  em  desenvolvimento.  A  manutenção da política de acomodamento das empresas na crise,  elevando  margens de lucro por unidade,  reduzindo e elitizando o consumo,  cortando investimentos em processos  e  insistindo em um padrão autoritário de relação capital-trabalho está esgotada.  Este acordo rompe com  esta  lógica,   constrói  uma   agenda  para  o   futuro  e  pode  iniciar  um  programa  de  reestruturação  e modernização do complexo automotivo. 

     No  entanto,  o filósofo grego Zenão de Eléia já salientava que,  se um viajante fizer metade do caminho por dia,  jamais   chegará  ao  seu  destino,  porque  sempre  estará  faltando a outra metade.  A reversão da política econômica   recessiva  e  a    estabilidade    econômica   duradoura   exigem  que  as   câmaras   setoriais  sejam acionadas nos outros setores estratégicos da indústria.  Temos que aproveitar este momento de entrada da safra agrícola,  preços  reduzidos  do  petróleo  e  queda  nas  taxas  de  juros internacionais para derrubar a inflação, retomando  o  crescimento  econômico.  As  câmaras  são um instrumento de coordenação de expectativas e de articulação  entre  política  de  rendas  política  industrial.  Um  instrumento  necessário,  mas  insuficiente para reverter  a   política   econômica   ortodoxa  e  recessiva.   O  governo  precisa  abandonar  o  discurso  fácil  do neoliberalismo,   da    antecipação   da    abertura    econômica   e   construir   a    competitividade,    discutindo democraticamente  com  a  sociedade  um projeto nacional de desenvolvimento.  Nesse sentido,  é fundamental proteger  os  setores  populares  mais  frágeis  na   crise,  iniciando  imediatamente  a negociação da política de salário mínimo em base ao projeto da cesta básica, que apresentamos há um ano e ainda não foi implementado.

     O  passo que demos com este acordo setorial é muito importante.  Quem sabe andamos metade do caminho. Mas  se  o   governo  não  vier   decisivamente  de  encontro  com  as  aspirações  da  sociedade  de  estabilizar, retomando  o crescimento,  poderemos andar um pouco mais,  sem jamais romper o paradigma de Zenão.  Mas independente das atitudes futuras do governo, a sociedade brasileira amanheceu melhor. A ousadia do gesto de Vicentinho  elevou  os  trabalhadores  para  além  da  condição  de  assalariados.  Tenho certeza que as amarras ideológicas  e  a  repetição  das  idéias  antigas  construíram mais uma forma de resistência a este novo caminho. Mas  a  sociedade  não quer da oposição apenas as críticas e o protesto social.  O protesto como única proposta está esgotado.  O país está ansioso por alternativas, por novas formas de ação política que permitam minimizar imediatamente  o  imenso  sacrifício  social  imposto  ao  nosso  povo.  A  CUT  se  afirmou politicamente.  Os trabalhadores romperam o corporativismo, sem esquecer sua condição de assalariados, e com isso se elevaram à  condição  de  produtores,  consumidores  e  cidadãos.  Quem sabe,  com esta atitude,  os empresários também mudem e a democracia possa estar começando a chegar nas fábricas.

 

 

 

Aloizio Mercadante, 37, economista e deputado federal pelo PT.