Folha de São Paulo

12 de Dezembro de 1996

Muito obrigado, doutor Gustavo Franco
ALOYSIO BIONDI


Consta que o jovem doutor Gustavo Franco é o assessor que goza da preferência do presidente FHC. Diretor da área internacional (remessa de dólares etc.) do Banco Central, o doutor Franco ganhou notoriedade nas últimas semanas ao divulgar um estudo no qual tenta justificar a política econômica do governo FHC.
Em síntese, ele diz que o ''rombo'' na balança comercial (exportações menos importações) é um bem para o país, e foi planejado para forçar as empresas a se modernizar e preparar a economia para uma outra era. Explodiu uma polêmica, com economistas apresentando argumentos teóricos contra a ''tese''.
Um equívoco. A polêmica impede que a sociedade veja a verdade. Basta relembrar o noticiário dos últimos dois anos, para constatar que o governo FHC não ''planejou'' coisíssima nenhuma o ''rombo'' na balança. Todos os dias, ministros, assessores ou o presidente anunciavam que em breve a balança voltaria a oferecer resultados positivos, isto é, o objetivo do governo era reequilibrar as exportações e as importações.
Se o ''rombo'' existe e cresce, portanto, é porque o governo cometeu erros monumentais ao escancarar o mercado às importações. A ''teoria'' do doutor Franco, portanto, não passa de um amontoado de justificativas depois da porta arrombada. Essa é a única verdade que interessa à sociedade, para exigir mudanças na política.


Tempo de elogio
Em artigo de página inteira publicado nesta Folha, o doutor Franco honrou este veterano jornalista com nada menos de dois elogios, chamando-me de ''extraordinário'' e ''economista de porta de cadeia''.
Sabedor do brilho e profundidade intelectual do doutor Franco e de toda a corte do príncipe-sociólogo FHC, suspeitamos prontamente que o jovem doutor jamais usaria qualquer palavra com seu significado popular.
Obrigados, por dever de ofício, a esgrimir as palavras com precisão, nos lembramos de que, em seu significado mais amplo, ''extraordinário'' quer dizer _na definição de Caldas Aulete, em seu dicionário_ ''que não é conforme o uso ou costume geral ou ordinário''.
Lembramos também que esse é o significado do adjetivo ''louco'', definido exatamente como ''extraordinário, fora do comum'' pelo mesmo Caldas Aulete.
Honestamente, ficamos desvanecidos. O doutor Franco, com seu elogio, não apenas demonstra conhecer como presta homenagem à ''loucura'' de, em 40 anos de carreira jornalística, não abrirmos mão de princípios profissionais e não dizermos ''amém'' aos poderosos do momento.
Uma ''loucura'' alimentada pela observação de que o maior inimigo do jornalista é o ''deslumbramento'', a vaidade. Presidentes da República, ministros, políticos e elites (parcela delas que lucram com privilégios) seduzem jornalistas com telefonemas pessoais, falsa intimidade. Os jornalistas caem na rede. Passam a se julgar ''seres superiores''. Viram participantes do jogo do poder. Traem a seus leitores e a si mesmos. Essa, desgraçadamente, a norma. Que os ''loucos'' rejeitam.


Porta de cadeia
Ao chamar este jornalista de ''economista de porta de cadeia'', o doutor Franco faz alusão à freqüência com que esta coluna tem se ocupado de aberrações do governo FHC.
Há o roubo dos direitos de acionistas minoritários; roubo de direitos adquiridos de funcionários; privatização a preço de banana; prejuízos à CEF para beneficiar bancos; conivência com remessas fraudulentas de dólares (denunciada por um procurador da República ''louco''); e assim por diante.
Ao classificar a coluna como ''policialesca'', o doutor Franco nos faz honroso elogio: reconhece que estamos retratando com fidelidade e acompanhando atentamente, como é nossa obrigação, uma política econômica que freqüentemente é um caso de polícia. Muito obrigado, doutor Franco.
Há um pequeno reparo a fazer. No afã de exercer seus dotes intelectuais, o doutor Franco adaptou a expressão ''advogado de porta de cadeia'', que, como todo mundo sabe, aplica-se aos profissionais que defendem marginais, bandidos, e têm sempre prontos pedidos de habeas corpus e outros documentos legais para libertar seus ''clientes'' tão logo são detidos.
No caso dos advogados, o objetivo é ''soltar'' os delinqüentes. No caso do jornalista, é o oposto: fornecer subsídios à sociedade para que ela se oponha a ações criminosas. E, no futuro, puna os infratores. Esse ''futuro'' pode demorar. Mas sempre chega. Como aconteceu na Itália, na Coréia, no Japão, na França ou mesmo nos EUA. Por enquanto, muito obrigado, doutor Gustavo Franco.

Aloysio Biondi, 60, é jornalista econômico. Foi editor de Economia da Folha e diretor de Redação da revista ''Visão''. Escreve às quintas-feiras no caderno Dinheiro.