Folha de S. Paulo Terça-feira, 1 de maio de 2007 

   

            

   

O massacre dos Claudionores 

Benjamin Steinbruch

 

 

 

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Embora a demanda local esteja aquecida, Claudionor compete com os importados, cujos preços caíram muito

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ÀS VÉSPERAS DESTE feriado de 1º de Maio, Dia do Trabalho, telefona-me um amigo que não vejo há anos, Claudionor. Ele tem muitas histórias a contar, mas, quando dá uma pausa para respirar, a pergunta óbvia que faço é "como vai a fábrica?"

Claudionor é sócio de uma indústria de calçados de tamanho médio (ou será pequeno?). No início de 2003, com o dólar a R$ 3,50, chegou a exportar mais da metade da produção. Recebia cerca de R$ 35 em média por cada sapato que exportava, diga-se, de excelente qualidade. O tempo passou, o dólar foi caindo até se aproximar de R$ 2. No período, ele conseguiu fazer um pequeno reajuste de 10% no preço médio do sapato em dólares, mas, ainda assim, a receita em reais caiu para pouco mais de R$ 22 por unidade. Ou seja, em quatro anos, teve perda de receita de 37%, que tornou a operação economicamente inviável.

Essa não é uma história muito apropriada a um Dia do Trabalho. Mas o que Claudionor queria contar no telefonema era que havia decidido fechar a linha de produção para exportação da empresa, o que implicaria corte de uma centena de empregos. Ele não tinha como redirecionar a produção ao mercado interno. Embora a demanda local esteja aquecida, Claudionor sofre concorrência de importados, cujos preços caíram muito com a queda do dólar.

Existem centenas de Claudionores na indústria brasileira, principalmente nos setores de calçados, produtos têxteis e móveis, que perdem mercado lá fora e aqui por causa da sobrevalorização do real.

Na semana passada, o governo elevou a tarifa de importação de calçados e confecções de 20% para 35%, um reconhecimento explícito dos estragos provocados pela apreciação cambial nesses setores. E vêm mais medidas por aí. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, já avisou que estuda fórmulas para desonerar a folha de pagamento de empresas exportadoras que sejam altamente intensivas em mão-de-obra.

Tanto o aumento da tarifa de importação quando a desoneração da folha são medidas bem-vindas. Melhor com elas do que sem elas. Afinal, representam um sinal de que pelo menos começou a ser debatida, no âmbito do governo, a eliminação de fatores que reduzem a competitividade da empresa brasileira tanto no mercado externo quanto no interno. Mas os Claudionores estão mesmo sendo massacrados pelo câmbio, que ameaça cair abaixo de R$ 2 antes de Romário fazer seu milésimo gol, segundo pilhéria que corre no mercado financeiro.

O ideal, portanto, seria promover um ajuste natural no câmbio, por meio do corte mais rápido dos juros internos -além, é claro, de iniciar as reduções de carga tributária. Mas, enquanto não se faz isso, medidas emergenciais aqui e ali vão quebrando o galho.

Para não ser tão pessimista em pleno Dia do Trabalho, vale lembrar que o impacto do dólar nas vendas externas vem sendo em parte compensado, em alguns setores, pelo aquecimento do mercado interno. Uma parcela da produção que era exportada tem sido redirecionada para o consumo local. Com isso, no primeiro trimestre -essa é a boa notícia-, as empresas brasileiras abriram 399 mil empregos formais, 17% a mais que no mesmo período do ano passado. Bom resultado, mas é preciso olhar para a frente. Perder posições no mercado externo é uma lástima -custa muito caro reconquistá-las. Se o câmbio continuar como está, o verdadeiro massacre dos Claudionores virá mesmo no momento em que as vendas internas começarem a patinar.

 

 

 

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BENJAMIN STEINBRUCH , 53, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp.