Folha de São Paulo

01/12/96

Rastros de ódio

LUIZ GONZAGA BELLUZZO



"Desconfio dos arquitetos que oferecem construções baratas e dos economistas que prometem soluções fáceis." Joseph Schumpeter


Nos últimos meses vem se consolidando, nos meios relevantes para a formação da opinião econômica, o convencimento de que o atual arranjo cambial-monetário-fiscal deu origem a "circuitos viciosos".
Vamos enumerá-los sem a preocupação de esgotar o assunto: a) crescimento, queda nos níveis de proteção efetiva e déficit da balança comercial; b) câmbio real valorizado e (baixo) dinamismo das exportações; c) expectativa de desvalorização e manutenção de diferenciais elevados entre as taxas de juros domésticas e as internacionais; d) taxas de juros reais muito altas e desequilíbrio das contas públicas; e) a rápida ampliação da dívida pública de curto prazo e o aumento da inquietação nos mercados financeiros.
Setores do governo têm reconhecido a existência dessas relações adversas. Uns têm procurado por meio de ações tópicas, principalmente na área do comércio exterior e na esfera fiscal e tributária, compensar os efeitos do arranjo cambial e monetário que sustenta o Plano Real. Outros vêm acenando com os benefícios do investimento estrangeiro e dos ganhos de produtividade que seriam capazes de, num futuro próximo, superar os prejuízos causados à competitividade da indústria local pela taxa de câmbio desalinhada.
Diante dos últimos resultados da balança comercial e do desempenho das contas públicas, nem as medidas localizadas, nem as palavras encorajadoras têm conseguido aplacar a apreensão quanto aos riscos e custos da atual estratégia de estabilização. A maioria dos observadores admite que, preservado o seu desenho atual, o programa de estabilização provocará o aprofundamento das inconsistências apontadas acima, tornando cada vez mais provável um desfecho traumático.
Foi nesse clima de desconfiança que o diretor da área externa do Banco Central, Gustavo Franco, resolveu aumentar os decibéis de seu discurso em defesa da política do governo e intensificar o ataque aos críticos. Primeiro, foi cuidadosamente passado para a opinião pública o documento "A inserção externa e o desenvolvimento". Seguiram-se entrevistas e artigos na imprensa. Nessa ofensiva Franco procurou se apresentar como autor e ideólogo de uma "nova revolução copernicana", condenando a opinião dos adversários à escuridão da ignorância. O grito de guerra do movimento transformador foi dado na entrevista à revista "Veja", ao avaliar o que aconteceu nas últimas décadas: "Foram 40 anos de burrice!"
O exame mais acurado do documento e a inspeção cuidadosa dos argumentos exarados nas entrevistas não conseguiram, lamentavelmente, convencer os críticos de que as pretensões de Franco devessem ser compradas pelo valor de face. O documento apenas revela o esforço louvável de um funcionário do governo, tentando justificar as dificuldades de condução das políticas sob sua responsabilidade.
O problema é que, para tanto, nosso Gustavo escolheu a rota das "Grandes Narrativas" e aí o seu caminhãozinho atolou. Encarado sob esse prisma, o documento é uma mera sistematização das trivialidades vendidas com deságio nas bancas dos "camelôs" do pensamento dominante: inevitabilidade da globalização, Estado mínimo, crença nas virtudes do mercado etc. Entre uma "pensata" e outra colhemos, por exemplo, ensinamentos sobre os fantásticos ganhos de produtividade da indústria depois da abertura, que estranhamente não se refletem nas exportações, ou recebemos lições sobre a incrível possibilidade de se utilizar, no fechamento das operações de câmbio, bananas em vez de reais.
O balanço dos méritos e das insuficiências do "Manifesto Copernicano" deixou, mesmo entre os simpatizantes do governo, a suspeita de que há um descompasso entre a ambição e o conhecimento, entre a ousadia e o talento.
Aborrecido com o relativo insucesso da empreitada, Gustavo passou à fase da cólera e da agressão aos adversários. Esse momento de sua trajetória intelectual o aproxima, aliás, de uma das mais sólidas tradições nativas. No gênero, seu artigo publicado no caderno Mais! do último domingo é uma obra-prima, irretocável. Combina magnificamente as artes de opinar sobre livros que não leu, de julgar autores que ignora e de divagar sobre assuntos que não domina.

Luiz Gonzaga Belluzzo, 52, é professor titular de Economia da Unicamp (Universidade de Campinas). Foi chefe da Secretaria Especial de Assuntos Econômicos do Ministério da Fazenda (governo Sarney) e secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo (governo Quércia).