Istoé Dinheiro  06.02.2006

A guerra da moeda
Livro revela detalhes inéditos do
Plano Real e expõe os dramas de seus principais combatentes


Por Leonardo Attuch

A trincheira era imaginária. As armas eram
idéias poderosas. Com elas, um grupo de economistas tomou conta do País. Eis a trama
de 3.000 Dias no Bunker – um plano na cabeça
e um país na mão
(Editora Record, R$ 48,90), escrito pelo jornalista Guilherme Fiúza. A guerra foi travada em torno da estabilidade de preços no Brasil e começou no governo Itamar Franco, quando os economistas da PUC do Rio de Janeiro se juntaram ao sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que havia assumido o Ministério da Fazenda. Entre os combatentes, Pedro Malan, Gustavo Franco, André Lara Resende, Persio Arida e Edmar Bacha, unidos pelo desejo de exterminar a inflação. Escrito com um texto arrebatador, o livro de Fiúza revela detalhes inéditos do Plano Real. Se dependesse do FMI, o Brasil teria dolarizado sua economia, assim como a Argentina. E se dependesse de alguns economistas do bunker, a nova moeda, que quase foi batizada como “cristal”, teria sido lançada apenas após as eleições de 1994.

Fiúza também revela os dramas vividos por cada um dos personagens da guerra, em especial do protagonista Gustavo Franco. Um exemplo: na véspera do lançamento da URV, embrião do real, Franco teve de arbitrar um caso de adultério entre dois diretores do Banco Central. Em outro momento, quando os empresários faziam romaria contra o câmbio, Franco recebeu um grupo de industriais no BC. Na saída, Cláudio Bardella enfiou um papel no bolso do economista – era um pedido pessoal. Fiúza também revela que FHC ligou para Gustavo Franco pedindo que ele liberasse um aval para uma obra que a Andrade Gutierrez faria no Irã. Franco não cedeu e
não caiu.

Fiúza conta como outros personagens participaram do processo de reforma do Estado. Um deles foi David Zylberstajn, que ajudou a criar as agências reguladoras. Outro foi Sérgio Besserman, que, no BNDES, concebeu a Lei de Responsabilidade Fiscal. Numa passagem, Fiúza relata como foi a transformação do antigo BNDE em BNDES – o “S” representava a inclusão do Social. O primeiro projeto foi apresentado pelo banqueiro Luiz Cezar Fernandes, que pretendia implantar um complexo para venda de hortifrutigranjeiros no Rio de Janeiro, com a ajuda do banco. Como os diretores ficaram com o pé atrás, Cezar deu um murro na mesa e disse que era melhor esquecer essa história de social. Luiz Carlos Mendonça de Barros, então presidente do BNDES, interveio e lembrou que o “B” era de “banco” e não de “babaca”.

Na essência, o projeto dos combatentes do bunker continua vivo. Tanto assim que, em 2002, logo após as eleições presidenciais, Malan telefonou para Gustavo Franco exaltando as virtudes de um médico de Ribeirão Preto chamado Antonio Palocci. Franco pensou por um segundo e disse ao amigo: “Pedro, ganhamos as eleições!”