OESP, 08.12.02

O papel do Banco Central

 

A discussão que consumiu as atenções de todos, nesta semana que passou, sobre a identidade do novo presidente do Banco Central (BC) passou ao largo de temas muito mais importantes. A agenda, afinal de contas, é mais importante do que a pessoa, ou deveria ser.

Que papel a nova administração vislumbra para a Autoridade Monetária nos próximos anos? Como funcionará o BC num “novo modelo econômico” que se pretende implantar? Como será a regulação bancária, o segundo convênio da Basileia, o tratamento dos bancos públicos e dos temas pertinentes ao artigo 192 da nossa Constituição na nova realidade econômica que se desenha?

Não se pode distinguir propriamente um pensamento muito articulado, por parte do Partido dos Trabalhadores, sobre estes assuntos. Todas essas questões parecem técnicas demais, financeiras demais, e portanto, distantes das preocupações centrais do Presidente Eleito. Mas é preciso cuidar desses assuntos. Alguém tem de cuidar dessas coisas e seguindo alguma orientação. Os mercados financeiros e a atividade bancária não podem ser paralisadas por dúvidas conceituais. O PT precisaria saber o que dizer sobre esses assuntos, inclusive para investir-se da autoridade para afirmar que pretende implantar um “outro” modelo econômico no qual as políticas em vigor não seriam cabíveis.

Nesse sentido, me parece infeliz e injusto o tratamento reservado pelo Presidente Eleito e sua equipe ao atual presidente do BC, Doutor Arminio Fraga, que fez um bom trabalho, como é consenso entre os economistas deste país, com as exceções de praxe. Ao declarar que o Doutor Arminio não deverá continuar em seu posto, como fez o Presidente Eleito, por que a próxima administração será uma de “mudanças”, não há o que se disputar quanto a autoridade do Presidente em fazer sua escolha. Mas como vivemos em Democracia temos o direito de discutir o mérito da decisão e de perguntar: qual é mesmo este “outro” modelo econômico onde o Doutor Arminio não cabe, ou onde o BC tem um papel diferente do que tem hoje?

Mas o Presidente Eleito não quer o Doutor Arminio e ninguém discute este seu direito de escolher outra pessoa. Faria bem o Doutor Arminio, já que é tão indesejado, em afirmar desde logo que, a partir de primeiro de janeiro, estaria fora do BC, a fim de evitar constrangimentos ao Presidente e sua equipe.

Mas se o Presidente Eleito deseja substituir o Doutor Arminio pelo Doutor Pedro Bodin é inevitável a pergunta: onde está a mudança? A menos que se descubra que o Doutor Bodin chefiou alguma célula cripto-trotskista na Borgonha, o que não é provável, o que se sabe é que o pensamento econômico do Doutor Bodin é semelhante ao do Doutor Arminio, que por sua vez é semelhante o deste humilde escriba. Voltam, portanto, as perguntas conceituais: que papel terá o BC no “novo modelo econômico” ? E, aliás, qual é mesmo esse o “novo modelo econômico” ?

O mesmo vale para o Doutor José Julio Senna, economista de impecáveis credenciais “neoliberais”, PhD pela Universidade de Chicago  e ex diretor do BC, como o Doutor Bodin, o qual, teve o seu Ph.D pelo MIT (Massachussetts Institute of Technology).

Cadê a mudança?

Gostaria de deixar claro que seria uma excelente noticia se o BC fosse chefiado pelo Doutor Bodin ou pelo Doutor Senna. E que seria tolo dizer que isto é o sinal de que estamos avançando na direção de “outro modelo econômico”. Ainda bem que não estamos.

A política é uma nuvem, como dizem. Para um economista como eu, que ouviu críticas ininterruptas dos economistas do PT durante todos esses anos, a expectativa era de ver o Doutor Mercadante e o Doutor Mantega nos principais postos da área econômica. Pois se, afinal, estava tudo errado, agora eu, e tantos outros economistas de formação convencional, teríamos genuína curiosidade de ver como é fazer a coisa certa. Por que os principais economistas do PT não são os comandantes da área econômica? E em seus lugares estão o Doutor Palocci, que é médico e fala como o ministro Malan, e o Doutor Bodin ou o Doutor Senna?

O PT ganhou as eleições, devia governar, não?

Eu só queria entender.